Capítulo XII

O meu quinto, sexto e sétimo artigo de Artista para Artista do Capítulo XII foram escritos para estimular a mente criativa através da capacidade imaginativa. Em essência, o artigo “Imaginação é a chave para o teu Éden” é dividido em duas partes, sendo ambas cautelosamente desenhadas para todo e qualquer artista: desde pintores a realizadores, a advogados, músicos, matemáticos, chefes de cozinha a actores; para todos aqueles que se encontram genuinamente interessados em fazer uso da sua imaginação através da própria fonte de criatividade (o seu jardim de éden) e aplicar essa forma de viver no seu quotidiano.

O artigo “Imaginação é a chave para o teu Éden” bem como todo e qualquer outro artigo que escrevo neste blog, são dedicados à minha amiga Catarina Molinari Osório, que é quem me tem ajudado a dar forma aos artigos que escrevo em nome da criatividade. Sem ela, o capítulo XII não existiria assim como o conhecemos pela presente.


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Imaginação é a chave para o teu Eden - Part I

Samuel Taylor Coleridge escreveu no Capítulo 13 das suas notas sobre a imaginação: “A imaginação primária que sustento é o poder vivo e o agente principal de toda a percepção humana, e como uma repetição na mente finita do acto eterno da criação no infinito Eu Sou.” O poeta Britânico refere-se a esta imaginação dita primária como o “eu sou”, e como a criação do nosso próprio “eu”, sendo esta uma qualidade de origem “divina” que é atribuída ao próprio acto de criação. Qualidade que está normalmente intrínseca no poeta, fazendo deste o tal celebre “Génio poético” conhecido por todos nós.

No audiobook, “Eu Sou”, da “Vida Imaginada” de Diana Castle, (Representação como a arte da Empatia e da Imaginação), a autora da filosofia criativa de aplicação prática da empatia e da imaginação através das artes performativas, também utiliza a expressão “Eu sou” de forma a expressar a nossa imaginação primaria. Referindo-se a este tipo de imaginação como sendo um estado genuíno, com infinitas possibilidades utilizada por toda e qualquer criança. Castle diz que quando somos crianças, costumamos usar e viver constantemente no nosso mundo imaginário. Este mundo da imaginação era um sítio cheio de possibilidades criativas, utilizado por nós quando eramos crianças e onde utilizávamos a nossa imaginação primaria sem qualquer objeção ou limite através do termo “EU SOU.”

“EU SOU” o super-homem e vou salvar o mundo”
“EU SOU” um monstro e vou destruir a cidade
“EU SOU”, uma rainha e estou a vestir-me para o baile”
“EU SOU”, bombeiro e vou apagar um fogo”

Estas e muitas outras referencias são dadas por Diana Castle no seu audiobook, que reforçam a ideia de que quando eramos crianças realmente costumávamos imaginar e criar todo o tipo de situações e circunstâncias imaginarias. Quando eras criança tudo era possível e não era tarefa difícil passares a fazer parte de uma série de outros mundos imaginários diferentes do teu, através da simples utilização da tua imaginação e criatividade. Quando eras criança, usavas todos dias os teus superpoderes criativos para criar mundos imaginários e inúmeras possibilidades de ti, bem como brincadeiras e invenções sobre tudo e mais alguma coisa. O teu Jardim do Éden era assim, sem invernos, só com primaveras, um paraíso só para divertir, ouvir, curtir, refletir, usufruir, nutrir, atrair seduzir não um, não apenas um grupo, e sim todos os seres do teu jardim. A tua imaginação era assídua, e quando eras criança tinhas o poder de criar este jardim de primaveras sem fim, que te abriam portas para seres o que tu quisesses ser, quando quisesses. Não te faltavam possibilidades ou opções de escolha, e poderias interpretar tudo e todos sem limites.

A boa nova, é que é sempre possível regressar ao teu jardim esquecido, porque a chave para o teu Éden continua à tua espera para se reabrir. A imaginação dá-te essa chave de volta, para que consigas aceder ao teu Éden, onde poderás reencontrar possibilidades infinitas em ti próprio como ser humano ao serviço de outros e de ti mesmo. Do que é que estás a espera para ser livre e voar como um passarinho? Ser despreocupada como a borboleta ou cheirosa como uma flor? De que estás a espera para reflorir este jardim tão gentil? Essa procura possui um interesse para ti, certo? Talvez até acabes por te surpreender a ti mesmo… No entanto, aquilo que te vem imediatamente à cabeça é como é que será possível fazê-lo? De que maneira podes vir a ser mais criativo/a? Sendo que já não és uma criança e certamente muito menos criativo/a até porque já nem brincas e provavelmente já nem sabes onde está essa chave de acesso ao teu Éden esquecido. Certamente não te recordarás da data e hora que deixaste de ser criança e da última vez que te lembras de brincar, de usar a escova de cabelo como microfone ou de fingir que sabias tocar guitarra. Agora talvez não te apeteça mais fazê-lo; talvez não tenhas mais tempo ou paciência, até porque já não és nenhuma criança. Hoje em dia nem tens vontade de brincar, não te apetece como também não vês qualquer tipo de vantagem em faze–lo. Eventualmente, dizes a ti próprio bem como aos teus filhos ou filhas para pararem de estar no mundo da lua, e por consequência, a tua vontade de “Jogar” também se torna quase nula. O cantor tenor e instrumentista (trompetista, cronista, saxofonista) Louis Armstrong considerado “a personificação do Jazz”, referiu em tempos o seguinte em uma das suas celebres frases: "O que nós jogamos é a vida” neste caso, Louis Armstrong talvez se referisse ao Jazz, por ser o que ele fazia de melhor; tocar e cantar à vida sendo o próprio Jazz o “objecto” de vida. Para Armstrong a vida era o Jazz. Para ti até pode ser o “fado”, ou quem sabe, o “futebol”, mas uma coisa é certa: enquanto artista nunca deves parar de praticar. O maior exemplo disto é Cristiano Ronaldo que desde criança nunca parou de jogar até hoje. Certamente pensarás, “mas eu não parei de jogar, nem desapareci, ou pelo menos, não foi porque eu assim o quis (...) ando só a mil mas logo, logo estou no ir...” só que na realidade arranjas sempre mil e uma desculpas porque hoje, amanha ou depois nunca podes ... Porque na verdade até pensas, porque haverei eu de jogar se nunca serei um “Ronaldo”?? Por vezes tens saudades de quando eras criança, e desse tempo quando eras livre e feliz, mas agora frequentar o teu jardim ou quem sabe chutar uma bola, tornou-se impossível. Talvez tenhas virado atleta de competição, faças contas como um ás, ou quem sabe, agora és Sr. Doutor, pensas, pensas, pensas mas lá no teu éden não sentes a falta e já nem tempo tens para uma sopa, o sem abrigo “mal parir”. Talvez não te lembres de onde puseste as chaves do teu jardim, mas no entanto, o teu éden tem saudades de uma visita, e que apareças por lá de tempo em tempo. Mais do que uma visita de medico. As flores do teu jardim secreto precisam de carrinho, de amor, de compaixão, de generosidade, de sensibilidade e de doçura. Por isso, chega de pensar em todas as razões que te impedem de o fazeres. Lembra-te de que essa voz da consciência que te censura ou que te exige responsabilidade é aquele velho do restelo, é saturno ou quem sabe o teu pequeno ditador mais intelectual e lógico, o teu “censor” esquerdino e perfecionista. É o teu cérebro esquerdo, rotineiro e matemático, que te faz repensar vezes sem conta e que te continua a avisar que tu não és nenhum Einstein e muito menos um Ronaldo. Mas porque razão não o hás de ser? E não hás de redescobrir os teus poderes criativos? O teu éden pode neste momento estar fechado a sete chaves, pode ser secreto, sem acesso a outros para além de ti, ou quem sabe estar esquecido, mas quem disse que este não pode ser reaberto? Inicialmente pode ser difícil encontrá-lo, porque passaram-se primaveras sem fim e agora fica difícil relembrar qual o caminho a seguir. A busca pela tua criatividade é assim igual a brincares às escondidas, e mesmo quando esbaras com a imaginação é difícil acreditar que por de trás daquela porta encontra-se um jardim e um mundo de possibilidades à tua espera. É normal que surjam duvidas, pois parece-nos impossível reconhecer algo de já não nos lembramos à partida, mas a imaginação é assim, uma viagem ao déjà-vu, um sonho que pode demorar a colorir e até pode parecer assustador, bem como intimidante, mas no entanto é de relembrar que este jardim está “Escondido” e não tão fácil de discernir, mas quando menos se espera a porta lá aparece e cabe-te a ti acreditar que é possível redescobrir os teus poderes criativos e começar a viver de forma divertida e mais criativa no teu dia a dia. Pensa no Cristiano que passou uma década para marcar frente a Espanha, passou anos a projetar aquele golo (através da imaginação) e de repente foram três de uma só vez, assi batendo o maior record de sempre contra a “nuestros hermanos.”

Brenda Ueland recorda-nos que “devemos fazer uso da nossa criatividade pois nada mais faz como que as pessoas sejam tão generosas, alegres, dinâmicas, iluminadas e solidarias, tão indiferentes à guerra e à acumulação de objetos, bens e dinheiro” ao mesmo tempo que Samuel Taylor Coleridge, divide a imaginação em 2 partes – a primaria e secundária. Sendo esta secundaria o “eco” da primeira pois coexiste com a vontade consciente de pôr a nossa imaginação primaria em prática. A imaginação dá origem às nossas ideias de perfeição. Pensa em Imaginação com o teu lado direito, inspirador, brincalhão, criativo, artístico, e holístico. A tua imaginação são as tuas músicas preferidas ou varias estações de rádio que ouves pela manha; os teus campeões e vilões preferidos, os teus desejos e medos; as esperanças, trunfos alçados até agora ou sonhos que desejas ainda alcançar. Isto é o teu Éden, por isso é tempo de afastares a serpente em volta do teu jardim para o reativar e deixa a tua criança ou quem sabe “pequeno génio” sair da toca.

No Caminho do Artista, Júlia Cameron diz que “a mente artística pensa em padrões e sombras”; “é o nosso inventor, a nossa criança, ou o professor que está sempre no mundo dele ausente” para mim, é o “sky walker” do Star Wars, ou a nossa lanterna, aquela que ativa e foca através da imagem.

Na sua obra “vida imaginada”, a autora Diana Castle, fala em “imaginação como a possibilidade de identificação com aquilo que é ser-se humano e com as histórias ilimitadas sobre o carácter humano.” Castle diz que a imaginação permite expandir a nossa capacidade humana e que esta se ativa e se manifesta de modo a que tu a agarrares para consequentemente conseguires criar. É um mundo feito de imagens em que cada símbolo é imagem e cada “imagem uma nação”. Eu pessoalmente vejo a imaginação com um grande quadro que conta a nossa história, a história de ser-se humano no entanto, Pablo Picasso, pensava eventualmente neste mesmo quadro com sendo apenas “uma maneira de escrever um diário”. Tu podes não estar acostumado a escrever, a meditar ou a dançar, mas tal como Albert Einstein, tenho a certeza que conseguirás ser o suficientemente artista para “desenhares livremente” e dares asas à tua “imaginação” pois segundo o autor da “teoria da relatividade”, tudo é relativo, e por isso é que a “imaginação” acaba por ser “mais importante que o conhecimento”, pois enquanto “o conhecimento é limitado, a imaginação circunda o mundo”. Será que este é um pensamento assim tão radical e difícil de conceber?

Para recativares a tua “fogueira” ou qualquer tipo de fogo que desejas propagar precisas daquela combinação perfeita a qual chamamos o triângulo do fogo (oxigénio, calor e combustível). Estes três elementos são indispensáveis para que a chama se acenda. Para reativar a tua mente criativa também precisas da criatividade como fonte de combustível, bem como de ambos os lados da tua mente. O direito é o teu Éden e o acesso à tua fonte de imaginação, que serve para te “oxigenar” e posteriormente regenerar empatia. O lado esquerdo serve para te dar aquela “quentura” (de modo a levantares o cuzinho) e partires para a ação. Ambos, podem-se complementar e sustentar a tua imaginação, caso sigas as instruções do teu próprio manual. O teu Éden permite- te de aceder a um mundo para além do real bem como da tua experiencia pessoal. É assim que a arte é gerada, e quando activa esta manifesta-se. Cientificamente, é igual ao nosso corpo humano. Como ser humano, tu precisas de oxigénio para respirares, para o teu coração bater e sobreviveres. O teu coração é fisicamente o teu motor de arranque, que só ativa quando o ligas. Em termos criativos funciona da mesma maneira, neste caso a imaginação passa a ser a chave para a criação, para o teu Éden imaginário - fonte de criatividade como referi acima, pois o lado direito da tua mente é o responsável pela captura e o esquerdo pela comunicação concisa de pensamentos e ideias. Ideias estas que podem ser inspiradoras mas o mais importante é que te podem ajudar a revelar e avaliar as varias suposições, valores e crenças que fundamentam as maneiras pelas quais percebemos o mundo. Criatividade é o motor em si aquele que ativa através da tua imaginação e empatia. Ambos vão posteriormente manifestar-se através do trabalho artístico. Assim como escreveu Carl G Jung “A criação de algo novo não é realizada pelo intelecto, mas pelo instinto teatral agindo a partir da necessidade interna. A mente criativa brinca com os objetos que ama”. Por isso tentar eliminar, pelo menos parte do nosso “Ego”, intelecto ou alarme da consciência talvez será desde já um bom ponto de partida. Acabar com toda a série de pensamentos que nos causam insónias, distrações, stress ou mau estar, é um bom começo por aqui em diante, e é por isso que as filosofias do yoga e da meditação estão a crescer a olhos vistos. No “Caminho do Artista” Julia Cameron também nos repete (vezes sem conta) para “PARAR” - parar de dizer que é tarde demais”; bem como para “PARARES de esperar até teres dinheiro suficiente para fazes o que amas” porque isto é apenas "o teu ego a falar mais alto”; “PARA de dizer que os teus sonhos não interessam, que são apenas sonhos e que deves ser mais sensível” aos outros e ao mundo que te rodeia - ao mundo real - e especialmente “PARA de ter medo de falhar”; “PARA de ter medo que a tua família e amigos te vejam como louco/a”; “PARA de achar que criatividade é um luxo e deves apenas estar agradecido/a por aquilo que tens sem desejar mais” e a grande questão que se coloca sempre é se todos temos esse direito ou esse “talento” inato de sermos criativos...e será que há espaço para todos? Tal como, Cameron, menciona no seu livro, “a Criatividade nunca é cansativa. É sempre uma Aventura” e portanto infinitas são as possibilidades, de modos que como “quem corre por gosto não cansa”, pode continuar a correr e mesmo que não se esbarre de caras com a criatividade logo à primeira pode voltar a tentar mais tarde. A criatividade não se esgota por isso independentemente das vezes que se falha há sempre a hipótese de começar de novo e de a reencontrar dentro de nós a qualquer momento.Com o lançamento do seu livro nos anos 90, Júlia foi das primeiras autoras que ousou afirmar que cada pessoa “tem dentro de si uma fonte de criatividade, que pode ser regada e florescer” Natalie Goldberg, afirma no prefácio, da vigésima quinta edição, do livro de Cameron, que o que Júlia ensina é de facto “libertador e verdadeiro” e que “essa arte não é apenas para a elite, os poucos especiais atingidos por um raio”, apesar deste “segredo da criatividade” muitas vezes se encontrar em “estranhos cantos e recantos”, e na maior parte das vezes “fora do armário”.

Quando eras criança, passavas de facto a maior parte do teu tempo a brincar e a experienciar todo o tipo de mundos imaginários, no entanto nem tudo o que é criatividade envolve estares no mundo da lua, seres criança e teres de brincar, podes como anteriormente referi jogar ou quem sabe cozinhar, gritar ou cantar.

A arte de cozinhar algo novo é já é por si uma arte criativa. O próprio olfato que é o nosso sentido mais apurado, pode reavivar memorias em tempos esquecidas. O simples facto de gostares de ser criativo na cozinha por exemplo, sem seres necessariamente um profissional da área, é uma atividade criativa onde acabas por pôr a tua imaginação em prática. Quem diz cozinhar também diz cantar no banho, ou escrever um diário. Tudo o que precisas é começar a investir algum tempo em ti, como se de um date se tratasse. Começar a ter algum tempo de qualidade para ti para dar asas a tua imaginação invés de a renegar, seja lá de que maneira esta se manifeste no teu dia a dia. Quem disse que só poderias ser Einstein ou ninguém? Redescobrir a criatividade começa devagar, devagarinho. Da mesma forma como quando eras criança: começas por gatinhar e só depois é que consegues andar. Redescobrir a criatividade é assim bem devagar, pois a qualquer momento podes tropeçar por isso é preciso tomar muita atenção ao que te rodeia. A todas as imagens e símbolos bem como aos seus significados, porque a imaginação é como contar histórias, e criatividade existe em tudo o que é mistério; em lendas e misticismo - esta dá te um mundo de possibilidades adicionais as que já tens. É uma viagem que nunca acaba, onde o teus desejos de estrela do rock são sempre possíveis de realizar, nem que seja nos teus encontros semanais, diários ou quem sabe de tempos em tempos quando decides dar um pouco de atenção ao artista que há em ti.

Uma das frases mais celebres que o internacionalmente aclamado Anthony Bourdain nos deixou foi que “a maneira como tu fazes uma omeleta revela o teu carácter” pois para ele “um ovo era o que fazia tudo diferente.” O celebre chefe americano era romântico e artisticamente sensível o suficiente para “investir em ele próprio, o tempo e dinheiro” no seu “queijo”, como ele dizia, nesta atividade de “queijar” a sua própria omelete através da imaginação que servia para se curar a si próprio bem, como para também servir aos outros. A sua imaginação circundava o mundo e segundo a sua namorada, Asia Argento, numa citação do twitter “ a sua brilhante alma de aventureiro não só tocou como inspirou milhares de pessoas pelo mundo a fora.”