Capítulo XII

BASTARDOS!


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“Bastardos” são pessoas que adoram drama e que evitam agendas excepto a sua. Quando começas a criar algum espaço para ti, para a tua própria criatividade e autodesenvolvimento, há certas pessoas que conseguem arranjar sempre uma maneira de paralisar o teu esquema com uma inevitabilidade ou necessidade qualquer que precisam naquele instante, que no fundo acaba sempre por se sobrepor ou boicotar os teus planos, seja lá quais estes forem. Estes “bastardos” rompem com os teus prazos de entrega e invadem a tua agenda, desperdiçam o teu tempo, por vezes o teu dinheiro e requerem toda a tua atenção em inúmeras ocasiões. Agem sem noção e estão sempre à espera de tratamento especial, na maior parte das vezes sem razão para tal. Surgem sob a forma de um amigo chato, sob a ambiguidade do vizinho, na nossa Mãe mandona, no teu chefe lunático, no teu namorado idiota, no teu Pai teimoso, ou na tua esposa possessiva, entre outros estereótipos.

O “bastardo” é aquele que te dirá quando ages de forma anormal, quando na verdade fazes algo fora da norma e quase sempre te irá afincar dizendo que não são eles os responsáveis pelos teus actos em última instância. Na maior parte das vezes, estes rejeitam serem chamamos de bastardos e são capazes de colocar as pessoas umas contra as outras só para manterem a sua posição de poder. E tu, o que é que tu fazes sobre isso? Continuas a deixar que eles abusem de ti.

Vezes sem conta escolhemos sofrimento ou a infelicidade invés de mudança, mas quando a provocação, a revolta ou a ira nos desperta, sabemos que se prova necessário agir em nosso favor. Abraça tudo o que tu és; tudo aquilo que trazes contigo, tudo aquilo que te é profundo, toda a tua vastidão, nunca te abandones e sobretudo não te acanhes.

De acordo com as palavras da autora e jornalista Julia B. Cameron, autora do livro The Artist Way, “A preguiça, a apatia e o desespero são nossos inimigos. A revolta não é; a revolta é nossa amiga. Não é uma amiga agradável de paninhos quentes, mas é uma amiga muito leal. Será sempre ela a dizer-nos quando fomos traídos, ou quando nos traímos a nós mesmos. Será sempre ela a dizer-nos quando for a hora de agir em prol dos nossos próprios interesses. A revolta por si mesma não é própria ação, é um convite à acção.” Um convite para parar de dizer ‘sim, está bem” quando na verdade, não está. É muito importante para qualquer artista não se deixar ir abaixo por causa de pessoas que vulgarmente podemos designar como “Bastardos”. Não deixes que esses bastardos te demovam por não teres dinheiro suficiente, por seres velho, demasiado novo ou por seres tonto demais; por desejares criar e por quereres ser criativo. Não deixes ninguém oprimir as tuas habilidades, o teu talento ou intrepidez.

Um bastardo vai dizer-te que estás a agir como um louco se te comportares fora do padrão, quando a causa do teu problema até pode ser uma consequência dessa mesma pessoa. E nós, o que é que fazemos? Continuamos a permitir-lhes abusar de nós.

Muitas vezes escolhemos a miséria sobre a mudança, até que a determinado momento de revolta sabemos que chegou o momento de agir em nosso nome. Abraçar tudo o que nós somos; toda a profundidade, a vastidão, sem nos abandonarmos a nós mesmos.

A revolta é uma voz;

A revolta é um mapa;

Por vezes, a revolta mostra-nos onde ir, aponta o caminho, logo é importante por vezes saber dizer a certos bastardos” com revolta, que tens de ser respeitado, caso contrário, nunca serás. Não deixes que continuem a descontar a tua realidade, incomodar-te num prazo ou destruir a tua agenda. Mostra aos bastardos na tua vida que a tua revolta também pode ser um sinal de saúde. “O seu brilho é magia, é medicina. Pode mudar o mundo ... Faça as suas ondas, ventilar as suas chamas, incite os seus arrepios.”, aqui citando a autora Ev'yan Whitney.

De acordo com Julia Cameron “uma das mais difíceis tarefas que um artista tem que enfrentar é a sobrevivência artística. Os artistas devem aprender a arte de sobreviver a experiência da perda; a perda da esperança, perda da fé, perda de autoconfiança, de dinheiro e de si mesmos. Com os nossos feitos, sofremos inevitavelmente estas perdas durante o percurso de uma careira artística. Estes são os perigos da estrada, que de certeza forma são os nossos placares de alerta e de emergência que vamos encontrando ao longo da estrada. As perdas artísticas podem tornar-se num novo folgo, em ganhos e no desenvolvimento da nossa auto resistência, mas tal não acontece dentro do isolamento de uma mente artística amargurada.

Quando sentimos revolta gostaríamos de nos questionar sobre o que realmente se passa na nossa mente; o que acontece biologicamente? O que será que te vai cognitivamente na índole? Existem muitas formas de sentir estes sintomas e tu não precisas de estar clinicamente doente para o sentires. Para sentir revolta ou raiva não precisas de ser doente mental nem de estar depressivo por assim dizer. Não deveremos sentir vergonha de entrar em contacto com quem gostamos ou com alguém que não vemos há uns tempos. Talvez devemos reavaliar quem realmente valorizamos e que tipo de relacionamentos já não nos ajudam. Segundo Arthur Koestler, “Nada é mais triste do que a morte da própria ilusão.” apesar de ser necessária para desmascarar o vazio que transportamos dentro. A ilusão no seu pior lança uma facada directa para o fundo nas profundezas do nosso coração que de certa forma nos diz: estás a ver? As emoções emergem sem cessar e o mesmo padrão repete-se provindo de crenças que ainda não conscientes, acabamos por ir acumulando ao longo do tempo. De repente tudo se alinha e acontece a tempestade num copo de água. Aquilo que pensas ser o teu sofrimento são apenas as tuas emoções e mente em demasia.

A ilusão pergunta-te “como te atreves” e assemelha-se a uma crucificação, mas apenas caso queiras continuar perdido/a nesse arco-íris que de facto já não existe. Não tenhas medo de amar de mais, de sentir de mais, de pedir ou desejar demais. De ser autêntico. É importante teres orgulho de si próprio, por seres por vezes ruidoso de mais, vibrante de mais, honesto/a de mais, emocionante de mais, intenso/a demais, sensível de mais, transparente, bravio, natural de mais, carente ou intimidador demais quando estás com revolta. Roga para ser visto/a e convida-te para tempo de qualidade. Pede para seres respeitado/a e para seres compreendido/a. A raiva ou a revolta também faz de ti quem tu és e ajuda te a perceber quem tu és, o que és hoje, como aqui chegaste e como ainda poderás mudar a tua história ou pelo menos a forma como a tens contado. Compreende que nada está para além do medo e da vergonha por isso não deixes que a cortina se feche sem aplausos. Agora é tempo para receber. Pergunta a ti mesmo/a o que realmente valorizas. Orgulha-te de tudo o que tu és, da tua história. A história que nós contamos a nós próprios de nós mesmos é a grande chave da mudança, pois é aquilo que acreditamos conscientemente, ou não será sempre a consequência dos nossos actos. A nossa narrativa é aquilo que nos leva para a frente. Reza que sejas louca/o suficientemente para ser capaz de reeditar a tua narrativa, interpretá-la ou quem sabe voltar a contar a mesma de maneira diferente.

Julia Cameron diz que “Quando nos comprometemos a acreditar no potencial do criador que está dentro de nós para nos ajudar a curar muitas mudanças, as alterações de atitudes começaram a ocorrer.” Ou seja, por outras palavras, estamos convocados a um indispensável autoexame de transformação, em nome do que nos é essencial. Deveremos reexaminar o que nos interdita de abrimos o nosso coração, de confiar, ou de expor para o exterior aquilo que precisamos e desejamos em determinados acontecimentos ou circunstâncias. O nosso criador interior anda de mãos dadas com os nossos valores mais essenciais, que segundo o Astrólogo Nuno Michaels “São prioritários e fundamentais e se traduzem nos nossos gostos, primazias, escolhas, e objectos de investimento de energia- sexual, afectiva, psíquica, financeira, tempo etc..”Apostar no criador e em nós é alcançar o nosso real poder, para deixar transformar, confrontar, apalpar e curar de acordo com Michaels, as dores não curadas acabam por ser as feridas, apegos, medos, resistências, prepotências, cegueiras, obsessões e por ai fora. Julia Cameron salienta o facto que esta metamorfose a que somos propostos pode ser vista de fora como algo “louco e destrutivo” e que nas melhores das hipóteses esta autotransformação será no mínimo vista da parte de outrem como “excêntrica”, no entanto é importante estares disponível para abraçares esta tua loucura de braços abertos; procura e arisca ocupar o teu espaço. Expande o desejo de te autoconhecer melhor e torna-te mais específico na tua forma de ser, de estar, assim resgatando a tua própria auto- expressão, a tua individualidade, valor próprio e de segurança. Acaba de sustentar o ser tímido e falso ser que pensa e se contem em demasia. Para de acumular, as tais dores curadas e convenientemente escondidas da consciência, ou da cultura ou dos padrões familiares e de sobretudo de guardas dos teus pensamentos. Atreve-te a revelar os teus pensamentos, a atirar ca para fora as tuas sensações reais, as tuas opiniões mesmo que estas se manifestem de forma avassaladora. Para a maior parte dos criativos bloqueados, é difícil verbalizar aquilo que realmente sentem, devido à sua extrema carga emocional perante as situações. Por vezes, a revolta desencadeia um caminho profundo na descoberta do nosso próprio poder pessoal, por deixar surgir toda a tua intensidade ao de cima, pois na verdade quanto mais guardares essa raiva dentro de ti, mais explosiva ela será quando eventualmente as conseguires expressar.

Citando a escritora Najma Anjum “Agora chega de cicatrizes. Acredita que essas cinzas podem dar origem a uma obra-prima quando forem ultrapassadas.” Esta recomendação também pode ser alusiva ao que a revolta te transmite: Chega! É suficiente! Não deixes que os teus complexos, sentimentos e emoções intensas que amedrontem. Atreve-te a ser louco/a, porque o preço de continuar em bloqueio é bem mais assustador a longo prazo! Deixa que o teu compromisso seja total, já o superficial e o casual não são tanto a tua praia. Arregaça as mangas e vai à origem resolver o problema. Faz intencionalmente uso do poder que trazes contigo, sem medos, rancor ou ressentimentos. ”Be willing to find out what makes people tick” e louco o suficiente para acreditar que é possível mudar o mundo, nem que seja através da mudança que consegues criar à tua volta. Talha o teu nome numa pedra e assim consequentemente abres novos caminhos para que outros possam seguir-te. Para finalizar gostaria de acabar este artigo com uma das minhas frases preferidas escrita pelos génios da Apple, Inc. Steve Jobs e Rob Siltanen

“Here's to the crazy ones. The misfits. The rebels. The troublemakers. The round pegs in the square holes. The ones who see things differently. They're not fond of rules. And they have no respect for the status quo. You can quote them, disagree with them, glorify or vilify them. About the only thing you can't do is ignore them. Because they change things. They push the human race forward. And while some may see them as the crazy ones, we see genius. Because the people who are crazy enough to think they can change the world, are the ones who do.”

“Esta é para os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. As peças redondas em buracos quadrados. Os que veem as coisas de forma diferente. Eles não são apreciadores de regras, assim como não têm respeito pelo status quo. Você pode citá-los, discordar com eles, glorificá-los ou difamá-los. A única coisa que você não pode fazer, é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Eles impulsionam a raça humana para a frente. Enquanto alguns os veem como os loucos, nós vemos génio. Porque as pessoas que são loucas o suficiente para acharem que podem mudar o mundo, são as que efectivamente o fazem.”