Capítulo XII

When the "shit" hits the "fan"...


Já Einstein dizia que “A imaginação é mais importante que o conhecimento”. Enquanto que o conhecimento é limitado, a imaginação envolve o mundo. Eu pessoalmente penso ainda não ter atingido este estado de liberdade, mas as minhas crenças vão nesse sentido, portanto para lá caminho. A autora Júlia Cameron acredita que "à semelhança da vida humana, a criatividade começa na escuridão". Em analogia ao tema que José Saramago relata na sua obra Ensaio sobre a Cegueira e em alinhamento com as palavras acima descritas pela autora Julia Cameron, parece-me que o processo criativo começa da mesma forma como viemos ao mundo; ao longo do tempo somos expostos à luz que normalmente tende a aumentar, mas mesmo assim por vezes passamos por "cegos" no nosso quotidiano, e o mesmo acontece com o nosso amor, que também muitas vezes é cego, e portanto talvez pela mesma razão podemos considerar que a criatividade é cega, assim como é o amor. A questão é saber se esses estranhos amantes, conseguem também encontrar-se à noite, ou no escuro. A criatividade é como o amor; pode cegar-nos bem como elucidar-nos. É um sentimento que se estranha, mas que depois acaba por se entranhar profundamente.

Para alguns, a criatividade desvanece com o passar do tempo, e sem qualquer explicação lógica deixa de fazer parte das suas vidas, enquanto para outros, esta aptidão está simplesmente adormecida, perdida, e por vezes esquecida, mas claro que a qualquer momento pode revelar-se, mesmo que apareça apenas sob a forma de lusco-fusco durante uma noite. Por último, existe uma outra forma de criatividade, a qual Dante designa de "floresta escura" na sua obra Inferno; um lugar em que nada brilha e que acaba por cessar, pois a sua vida tinha deixado de seguir esse caminho. No entanto, foi neste fora de pista, a que Dante chama de "limbo", o lugar sem saída onde se sentiu perdido, e se deparou com um possível final que acabou por o levar a um recomeço. Consequentemente, o caminho certo a seguir em direção ao paraíso emergiu. A criatividade por vezes é evidentemente divina, e por outras endemoninhada. Consegue apaixonar enquanto também tortura, e nestes momentos, podemos escolher ver, ouvir e sentir, ou simplesmente ignorar esta "floresta selvagem" a qual Dante se referiu, pois, o véu que nos cega, normalmente acaba por cair durante o caminho da nossa jornada. Este tipo de sentimento conheço eu bem, mas mais uma vez, apenas aqui cheguei para me aperceber que derradeiramente apenas me situo perante as seguintes questões:

O que é efectivamente a criatividade e a habilidade de conseguir criar ou de transcender as ideias mais tradicionais sobre regras, padrões, e relacionamentos; e de que forma é possível dar significado a todas estas ideias, configurações, métodos bem como interpretações que ocorrem ou se originam dentro de nós? Será que a criatividade é um estado que se alcança, ou será que é uma qualidade que advém da capacidade de sermos criativos por natureza? E quais são as diferenças entre ser criativo e ser artista? Será que estes conceitos se sobrepõem? Será que o processo de criação ou criatividade é formado com o propósito de criar algo, seja este um pensamento, expressão ou imaginação que resulta em arte, em inovação, ou até mesmo em ciência?

Tendo em conta que o processo criativo é o que dá asas à nossa imaginação através de pensamentos ou formas de expressão que consequentemente dão origem a novas configurações ou obras de arte bem como inovações, podemos dizer que a criatividade poderá funcionar como veículo em direção a um maior nível de sabedoria e de conhecimento. Consequentemente, a criatividade é o motor de arranque facilitador do combustível, que no fundo faz com que tudo o resto seja possível. No entanto estas mesmas ferramentas que nos estimulam "o cérebro" no sentido de querer contemplar a arte e que nos dão expressão, também conseguem facilmente distorcer a nossa perceção do mundo e da própria realidade onde vivemos. O lado mais negro da criatividade pode mesmo corromper e até manipular populações inteiras de forma subversiva, logo sobeja saber como utilizá-la da melhor forma e com bom senso.

Tal como acontece no reino floral, existem seres humanos que se adaptam a qualquer tipo de solo, também existem outros seres que intitulo de "orquídeas", e que apenas vingam em certos ambientes ou climas. Contudo, isto não quer efectivamente dizer que este padrão do tipo "orquídea" não seja capaz de contribuir com as suas mentes atípicas em diversas áreas do âmbito criativo. O seu processo ou forma de desabrochar ocorre de forma mais intuitiva e selectiva, e por isso é apenas diferente daqueles que utilizam um caminho mais metódico e racional, pelas suas aptidões de célere execução.

A autora Gail Saltz, afirma que a maior parte dos "grandes génios da história da humanidade sofreram" e na actualidade continuam "a viver vidas sofridas", porém este "sofrimento nem sempre advém apenas de doença mental ou física". Na maior parte dos casos é "consequência de estas pessoas se sentirem rejeitadas" ou renegadas perante outros, "por serem vistos como diferentes", o que acaba por "levá-los ao isolamento", bem como a "serem privados de amar" e serem-se igualmente amados. No entanto, em reflexão eu diria que o problema advém da nossa relutância ou adaptação lenta à mudança; ao que é díspar ou incerto, e até mesmo à doença, que nos acaba por afastar muitas vezes de quem nos é querido, talvez por medo, receio de perda ou até por amar demais. Por isso este tipo de pessoa "orquídea" por vezes mais conhecidos por génios, criativos ou artistas, segundo Saltz, ainda hoje "mudam o nosso mundo com a sua arte ou sob formas inovadoras, mas continuam a carecer de aceitação, conforto, apoio por parte dos que os rodeiam". De facto, a questão das relações entre a criatividade e as doenças mentais começa pela visão distorcida de que para ser artista, será necessário ser louco, mas esta noção de loucura é sempre vaga, mal definida, que vai desde o comportamento e o pensamento desorganizado, até à falsa crença de que o processo criativo é responsável pelos comportamentos mais perturbadores de certos artistas, criativos ou génios. O perigo inerente está realmente ao nosso redor, e muitas vezes nas próprias pessoas com quem convivemos no nosso quotidiano. Dento do mesmo entendimento, o autor Rudyard Kipling refere as palavras como "a droga mais poderosa utilizada pela espécie humana", e como resultante será necessário melhorar a forma como comunicamos e a classificação de cada um destes conceitos que se abordam pela presente.

O artista é a pessoa com aptidões intuitivas e por isso mais direcionado para agir no seio da actividade criativa inserida no âmbito visual; sob a forma de pintura, escultura, desenho, fotografia, iluminação e assim sucessivamente, que pode ou não requerer de aptidões gráficas/ arquitetónicas ou de artes performativas que vão desde o teatro até à música, dança como forma de espetáculo, até a utilização de plataformas ou os média tal como a rádio, a televisão, cinema ou a internet. O artista é também aquele que apresenta um "certo jeito com as mãos", e a capacidade de destreza com trabalhos manuais que abrangem o restaurador, o chef de cozinha, o estilista da moda, o decorador de interiores, entre outros cargos. Tal como o compositor é considerado um artista seja este compositor de melodia à escrita sob a forma de escrita musical, de mistura ou então contador de histórias sejam elas sob a forma de romance, à tragédia, passando pela comédia ou qualquer outro tipo de temáticas ou conteúdos narrativos independentes do seu formato ou meio de expressão /comunicação. Por último o artista é visto criador, genreador, produtor, iniciante, inventor ou fundador de determinado tipo de pensamento ou processo original, que consequentemente é visto como um criativo, especialista ou génio em determinada matéria ou área de intervenção.

O criativo é conhecido como uma pessoa talentosa, virtuosa e original. Este requere que o próprio utilize o processo criativo ou de criação, que pode ser ou não gerado através do maior ou menor conhecimento, sendo que este poderá ser factual, histórico ou mais intuitivo, através do recurso à imaginação ou à ficção, que pode ir desde a poesia até à representação da tragédia ou da comédia, mas que origina ideias, percepções ou formas de expressão originais. decorrentes de uma viagem mental normalmente associada ao pensamento brilhante, sabedoria singular, diferente ou excecional. Portanto o criativo na sua essência é um ser artista que aplica o seu conhecimento ou imaginação sob forma singular e extraordinária em qualquer uma das áreas, sejam estas artísticas, científicas ou tecnológicas.

Este meu artigo tem com objectivo dar uma voz de artista para o artista, e em prol de todos os artistas que desempenhem actividades no uso da sua criatividade; incluindo os criativos que usam de forma regular ou irregular a sua criatividade ou processo de criação, estejam eles mesmo conscientes ou não da sua utilização. Tal é aplicável a qualquer artista em essência, mas que por algum motivo não está a conseguir exercer as suas aptidões criativas, por se encontrarem tremidas, esquecidas, adormecidas, questionadas ou bloqueadas.

A autora Gail Saltz relata que a noção de "artista torturado é uma invenção humana" e não emerge dos efeitos de uma aparente doença" mas da "reação de terceiros perante a doença ou diferença" que estes artistas podem eventualmente transparecer para o mundo exterior. Esta perspectiva reafirma que "todas as mentes, ou seja toda e qualquer vida humana tem potencial" Então eu diria que se calhar deveríamos começar por deixar de "arrumar para o canto" certo e determinado "padrão" de pessoas no mundo que nos rodeia. Abrirmos os nossos horizontes começa pela aceitação da diferença, que começa pelo respeito por cada indivíduo, até saber identificar, desmistificar e como consequente aprender a lidar com todo e qualquer tipo de diferença ou realidade de forma mais consciente, ou pelo menos utilizando o nosso bom senso da melhor forma possível. Deveremos deixar o preconceito de lado e acabar com pressuposto de que a criatividade e o processo criativo onde esta se envolve, é algo perigoso ou duvidoso, bem como revelar falsas crenças criadas pela sociedade, que estão intrínsecas nas nossas culturas, países, religião, política ou sistemas de valores individuais. Na maior parte das vezes em que se fala de neuroses terá muito mais a ver com o facto da pessoa estar bloqueada na sua criatividade do que o contrário. Deveremos então encorajar o génio que há em cada um de nós ao invés de diferenciar os que são capazes dos que aparentemente não são. A comparação neste caso é condenável, e segundo Gail Saltz, excluir à partida todos aqueles que saem "fora do modelo estipulado" como normal não é "apenas cruel mas um desperdício a nível colectivo". Portanto o nosso conhecimento sobre como lidar e actuar perante estas diferenças entre serem humanos pode não só aumentar a possibilidade de mais génios se emanciparem neste mundo, bem como contribuir para a qualidade de vida de milhares de pessoas que vivem no nosso planeta.

Portanto "when the shit hits the fan" vai muito mais de encontro a conscientização de cada um, bem como a possibilidade de integração de questões mais herméticas, mas acima de tudo saber distinguir Marte do planeta Júpiter. Pois a criatividade é isto mesmo; é algo maior do que nós que é livre, universal, e em última análise é user friendly e ouve diariamente tanto as nossas confissões, assim como os nossos pedidos. A criatividade é aquilo que nos conecta às nossas emoções, intenções, que dá forma às nossas vidas e nos regenera. A criatividade que vem de dentro envolve crença e espiritualidade, que segundo Julia Cameron é "verdadeiramente aquilo que nos une e nos dá vida"...

De acordo com o Astrólogo Nuno Michaels, "a vida é um yoga permanente, e não é indispensável mas útil fazer as prana ásanas, as respirações da pratica, mas não podemos fazer yoga e depois ir para a rua e sermos uns "Anas". A vida é um yoga, as frustrações, as ásanas, respeitar e observar o ciclo da manifestação é pranayama". Para mim a criatividade é tudo isto, é esta giga-joga ao qual eu gosto de chamar, yoga da vida. Escusado será dizer que artista que é artista não funciona sem o seu yoga e muito menos sem a ajuda de "Deus", seja em que forma de divindade que for significativa para cada um. Para Julia Cameron, Deus é o que funciona e refere se a este pelo nome de criador. No entanto para quem é ateu a palavra criador pode significar artista, e portanto para a autora, Deus também ele é um Artista. Sendo que Deus é o grande criador dos céus e da terra, e por sua vez o artista é alguém que cria algo suficiente significativo e por vezes intemporal para outrem, normalmente direcionado ao acto de criar, então de facto Deus só pode ser um artista. Diria então que em beneficio da criatividade no mundo, a mudança terá de chegar a partir de agora, e portanto será importante falar de Artista para Artista, do início até ao fim.