Capítulo XII

SONHOS E IDEAIS TORNADOS EM REALIDADE

O Coelho Branco pôs os óculos. “Por onde devo começar, Majestade?” perguntou ele.

“Comece pelo início”, disse o Rei, muito seriamente, “e continue até chegar ao fim: então, pare.”

- Alice no País das maravilhas, o depoimento da Alice, Capítulo XII


Por vezes, para se chegar a um lugar fantástico povoado por criaturas peculiares, é necessário começar por cair no buraco. Na maior partes das vezes, é na súbita e inesperada toca do coelho que se inicia a aventura de tomarmos as ações necessárias que vão de encontro aos nossos sonhos e ideais. Muitas vezes, é depois da queda que estamos prontos para nos levantarmos e caminharmos em direção a esta grande viagem da vida, onde passamos a aprender todas essas lições para no final podermos contar e irmos contando o que aprendemos. O final é o resultado da viagem que fizemos e aquilo que trazemos connosco. É neste contexto que chega agora o meu décimo segundo e último artigo do Capítulo 12, e, portanto, também a hora do meu depoimento e juízo final. O presente artigo “ Sonhos e Ideais em Acção” deveria por assim dizer, contabilizar os resultados desta jornada que me conduziu até aqui. Tendo em conta que comecei esta viagem como uma artista bloqueada entre o desejo da ação e o medo de falhar, deveria agora ser capaz de fazer um apanhado do que terá feito parar o meu medo estúpido de falhar e o que por último me ajudou a tornar as minhas vontades em realidade, mas em vez disso eu não conseguia parar de pensar como estes “sonhos em ação” ainda não tinham acabado de vez com os meus medos, vergonha ou expectativas, e como na realidade ainda não tinha tornado os meus sonhos em realidade, como poderia eu escrever este artigo? Talvez ainda não capaz? E se eu falhar? Foram estas as dúvidas existenciais que me passavam pela cabeça quando decidi escrever sobre este tema. Apesar de ser o meu décimo segundo artigo ao longo de um ano, a dúvida sobre se seria capaz de passar a primeira frase, continuava lá. Porém, o grande enigma era como seria eu capaz de escrever sobre sonhos tornados em realidade, se ainda não consegui realizar todos os meus próprios sonhos, pois neste momento ainda não publico tudo o que escrevo, nem ganho para fazer o que gosto e provavelmente ainda estou em processo de averiguação de como exatamente o posso fazer acontecer, bem como me questiono ainda sobre como será possível alinhar a minha arte com a forma. Finalmente, chegou um passarinho que me sussurrou ao ouvido: “falsearás até conseguires”, portanto, abaixo segue a minha partilha sobre aquilo que compreendi ser essencial no que toca a tomarmos a ACÇÃO necessária na direção dos nossos sonhos, sem restrições:

Primeiro e sobretudo, deves “rezar para apanhar o autocarro” e de seguida “correr” na sua direção para o apanhar “o mais rápido que conseguires”; nunca te perguntes “se serás capaz” de fazer seja o que for, diz ao invés que já o estás a fazer – esta opinião seria de caras o que te diria Julia Cameron, autora do livro “Caminho do Artista” que acredita que “um Artista bloqueado manifesta em si” uma tendência ou “adição para com a fantasia” e com o fantástico, por isso invés de “trabalhar e viver no agora” estes “criativos” ainda “bloqueados” tendem a deixar-se levar pelo seu mundo ao “sonharem acordados” e a estarem presos aos seus “sonhos sobre o que poderiam, haveriam e deveriam ser“ mas que não o são. Sonhos estes que são difíceis e que infelizmente não dependem deles e por aí fora… Todos nós conhecemos estas pessoas, bem como a impossibilidade da indústria artística no mundo em que vivemos, que por si já é difícil. Os artistas gostam de deixar bem claro que a culpa nunca é deles. Penso ser importante mencionar que um artista bloqueado é um criativo que se encontra “doente” e a precisar de apoio, como quem passa por uma depressão, um esgotamento, um ataque de ansiedade, quem come demasiado ou quem sabe que tem um problema de alcoolismo ou de adicçao. O primeiro passo é sempre procurar ajuda, seja esta através de um livro de autoajuda, de um psicólogo, de workshops ou até quem sabe reuniões de “alcoólicos anônimos” e por aí em diante, mas após essa fase preliminar deves sim “apertar o cinto de segurança” e preparar -te para o impacto. De acordo com Julia Cameron “deves esperar que o universo suporte o teu sonho.“ Sim! E que apesar da nossa crença de que “Deus não comanda o negócio da sétima arte” porque o que realmente queremos ouvir é que a “CAA”- “Creative Artistas Agency “o faz”, devemos pelo contrário esperar que as coisas mais inacreditáveis e “remarcantes ainda estão para chegar “.

No entanto, terás de encontrar em primeira instância aquilo que realmente gostas de fazer e perder algum tempo com isso. Identificar a tua paixão, o teu propósito maior para depois seres capaz de tomar a atitude necessária para transformar os teus desejos em realidade. Ekaterina Walker, autora do bestseller The Power of Visual Storytelling, defende que são estas três mesmas coisas (a paixão, o propósito e a atitude) que definem a tua jornada de vida. No seu ted talk, Walker indica que “A paixão impulsiona as nossa acção (...) configura o nosso propósito”, ao mesmo tempo que nos “define como pessoa, moldando-nos”. O propósito de vida é aquilo que nos poderá transferir algum significado nesta vida terreste, e “ter significado”, ter um propósito maior “na nossa vida” é uma das coisas mais importantes, “poderosas” e “motivantes” para o ser humano. Walker acredita que o propósito pode dar-nos autoconfiança e fazer com que “deixemos o medo”, e em última instância, ambas a paixão e o propósito affectam a nossa atitude. “Quando sabes quem és e o que queres alcançar, nessa altura a tua atitude perante a vida também muda, fazendo de ti imparável nessa caminhada que é só tua”. Pessoalmente concordo de facto que a paixão e o propósito podem ajudar-te na tomada de atitude, contudo, para realmente teres sucesso, sugiro que nos mantenhamos conscientes quanto aos conselhos de Justin Conklin, que nos convida à “inspiração” e ao estímulo do teu artista interior, do teu trabalho, ou seja o que for, fazendo-o numa base diária; deverás “desistir do teu plano B”, já para não falar de planos C e D … Por último, não deves “nunca aceitar um não como resposta”. São estas as verdadeiras chaves do sucesso disponíveis para ti, aqui e no agora.

O analista de sucesso, autor e orador Richard St John, que passou uma década na investigação das lições para o sucesso confessa no seu ted talk de três minutos em forma de “slide show” que estes são os oito pilares básicos que te levam ao sucesso:

  • A PAIXÃO vem logo em primeiro lugar. Se amas aquilo que fazes o mais interessante é que o dinheiro acaba por chegar por acréscimo;
  • O TRABALHO deve ser duro, mas é bom que te divirtas muito a fazê-lo;
  • O FOCO é indispensável. Deverás focar-te em cada coisa a seu tempo;
  • ESFORÇO vem no sentido de passar por cima da nossa própria timidez e incertezas;
  • O BEM advém da repetição. É pratica, pratica, pratica – isto vezes sem conta, sem ceder, não existe qualquer tipo de magia para ser se bom naquilo que se faz;
  • SERVIÇO tal como o nome indica, serve para compartilhar algo de valioso com os outros;
  • IDEAS, estas são simples, mas sempre acompanhadas de grandes teoremas e se as conseguires refutar, estás lá!
  • PERSISTÊNCIA por último não poderia faltar, pois deves resistir a todo e qualquer tipo de criticismo, rejeição, aos idiotas e à pressão.

A escritora Elizabeth Gilbert, refere no seu ted talk “creative genius”, que ela própria passou quase seis anos sem conseguir publicar os seus textos. Esta recorda que foram tempos devastadores e teve de perguntar-se a si própria em vários momentos se deveria desistir e poupar-se de toda a dor que estas inúmeras tentativas sem sucesso a faziam sentir. No entanto, a autora de “Comer, Orar, Amar” foi capaz de persistir a todo o “criticismo”, toda a “rejeição” a qual foi submetida, aos “idiotas” e da pressão a qual foi submetida, dizendo para si própria a cada regresso a casa: “Eu não vou desistir, eu vou para casa”. Ir para “casa” significava para Gilbert voltar ao trabalho de escrever porque escrever era a sua verdadeira “casa”. Ela gostava, por assim dizer, mais do que escrever, de não falhar, mais que o seu próprio ego, mais do que si própria. Escrever para ela estava acima de qualquer situação, pessoa, ou de si mesma, e foi esse esforço que a ajudou a passar por cima das adversidades. Por outras palavras, ela conseguiu se focar-se naquilo que era simplesmente a sua paixão – a escrita e isso ajudou-a a ultrapassar e ir mais além da sua “timidez e duvida existencial”. Portanto, Elizabeth reconhece esses tempos e o trabalho em si como tempos duros, mas que em última instância lhe dava também um prazer enorme e uma força que a permitiu ultrapassar os “se nãos “ao longo do caminho. Foi esse “vir para casa” contínuo que a tornou “boa” ou pelo menos, foi o acreditar cegamente que as ideias chegariam a seu devido tempo e qualquer coisa de valor dali iria sair, o que eventualmente poderia vir a servir muitos outros.

“A criação de algo novo é consumado pelo intelecto, mas despertado pelo instinto de uma necessidade pessoal. A mente criativa age sobre algo que ela ama.”
Carl G. Jung

A Arte desperta um desejo, uma ânsia, um anseio e uma inspiração sensorial que advém do que é visível, do som; do cheiro, do paladar e até do toque; estas sensações visuais, auditivas, tactivas, gustativas e olfativas advém da paixão, da sensualidade e do mundo sensorial que governa a atração, o amor à primeira vista, o romance e o amor propriamente dito. A arte nasce da atenção e é feita a partir dos detalhes. Esta é desencadeada por imagens, pela maravilha, pela surpresa, espanto, milagre, encanto, assombro, perplexidade, fascínio ou admiração em prestar atenção aqui e agora; momento a momento, uma coisa de cada vez. É tal e qual como meditar “a recompensa de prestar atenção é sempre terapêutica. Pode começar pela cura de uma dor em particular, da perda de um ser amado, mas a dor que está intrínseca e agregada subjaz a toda a dor; por assim dizer, a dor que todos nós temos em comum, como Rilke constatou, era esta dor de sermos “indizivelmente sós”, relata Cameron.

Em tempos recebi uma mensagem sobre o “principio da permanência” que dizia que este é o destruidor da felicidade e destrói porque criamos a expectativa de viver e repetir o que já se passou, assim queremos no mínimo uma experiência igual ou melhor, mas na arte isso não é possível pois esta não é quantificada. O trabalho criativo como se costuma dizer sobrevive ao tempo, é intemporal e mutável. Não existe estratégia, nem uma cábula permanente. Nada está certo ou errado e não existem experiências iguais. A arte é para mim “a janela da impermanência onde nada é constante, tal como nada é permanente na natureza ou na vida. E por isso é vital para qualquer artista e para a sua arte, colocar de lado expectativa e abrir-se à experiência de começar todos os dias do ponto zero sem esperar nada. O foco deve ser no agora, naquilo que é profundo, íntimo, instintivo e que advém de uma imensa vontade interior de expressão. A autora do “Caminho do Artista”, refere que normalmente esta tal necessidade que Jung descreve, ocorre-lhe sobretudo em momentos dolorosos “quando o futuro lhe parece bastante aterizador e o passado continua difícil de mais para ser lembrado”. Por isso imagino, que a ação acontece no presente talvez quando é possível trazer tanto o futuro como o passado para essa acção, podendo fazer a ambos um jus no agora ou quem sabe a ação passa mais por este “voltar a casa” e continuar a trabalhar, nos complexos e intensos segredos que engarrafamos diariamente e que vamos colecionando ao longo da nossa jornada. A arte está nesta janela da impermanência, que todos os dias se abre para te perguntar a que nova experiência te vais ligar hoje? O esforço da nossa parte começa por puxar esta carroça que nunca sabemos ao certo quando se irá transformar em abóbora, mas sabendo que nada é permanente sabemos também que tudo passa. Por essa razão, conhecer a nossa verdade e transcender-se a cada dia torna-se indispensável. No entanto, requer de nós, a manutenção da fé: Seja esta no amanhã, em algo maior que as nossas pessoas, os nossos amores ou nós próprios.