Capítulo XII

Abraçar a Criatividade - Parte II

Se encararmos a vida como uma jornada que percorremos, qualquer embarque ou viagem a qual nos propomos requer um mapa, e abraçar a criatividade é o nosso mapa para nos fazer pensar mais à frente, mais fora da caixa. A criatividade obriga-nos a estabelecer novos limites e proporciona-nos a oportunidade de sair da zona de conforto, abrindo caminho para novas maneiras de pensar, para novos desafios e oportunidades, desejos ou objectivos a atingir, mesmo que isso implique ariscar tudo no momento para sair fora de pista para um caminho mais incerto, mais inesperado e incalculável. Vão haver ruas sem saída, e muitos buracos pelo caminho, mas mesmo assim continuamos a ser responsáveis pelo nosso próprio percurso. Independentemente daquilo que tu decidas seguir irás sempre mais além, para o bem ou para o mal, inevitavelmente mudarás e só essa mudança é sempre melhor do que continuar sem saber, a levar uma vida infeliz, emocionalmente instável ou de descontentamento pelo sítio onde se começou. Seguir a “rua em direcção aos nossos desejos” nunca foi uma estrada segura pois é tal e qual como andar de avião, quando vais levantar voo é melhor apertar os cintos de segurança e parar de fingir que é difícil seguir os nossos sonhos de coração porque difícil passa depois a significar deixar de viajar e de conhecer novos lugares, novas culturas e paisagens só pelo medo de ir até lá. Difícil passa a ser encarar as muitas portas que se abriram e que poderás querer evitar ou fechar mal estas se abram. No entanto, se ao invés do medo entrares pela porta e perceberes que tudo à tua volta te coliga e assim está conectado a ti, vais perceber que serás capaz de muito mais do que já pensaste conseguir. Todos nós desejamos secretamente ser mais criativos, mas muitas vezes acabamos por ser "capturados entre o sonho da acção e o medo de falhar”; e se falharmos o que acontece? O que pensarão os vizinhos? A tendência é sempre de nos tomarmos como fôssemos tontos e sem qualquer tipo de talento, mas inconscientemente estamos apenas a arrecadar uma quantidade de falsas crenças, ansiedades e ataques de raiva que apenas servem para aumentar a nossa insegurança e falta de amor próprio. Temos frequentemente ideias brilhantes, mas que fingimos não sermos capazes de realizar especialmente porque a nossa inclinação é de desviarmos a nossa atenção para os outros em vez de para nós próprios, porque o contrário pode parecer egoísta. A autora Julia Cameron acredita que “as pessoas em geral, pensam que o tempo despendido com os outros e tomar responsabilidades sobre os outros, faz de nós boas pessoas”. Sou da opinião que apenas após nos libertarmos e consolidarmos como seres satisfeitos, seremos capazes de vir a ajudar os outros de maneira mais eficaz, e sobretudo sem cobrança ou frustração do desgaste que pode ser estar ao serviço de alguém, sem que avistemos uma luz maior ao fundo do túnel. Normalmente a pessoa acredita que será recompensada mais tarde de uma maneira ou de outra por essa bondade ou sacrifício realizado por algo alheio, no entanto apesar de esta forma de pensar não ser necessariamente verídica, existe bastante essa crença, e com o passar do tempo ou com o desgaste, a pessoa pode começar a sentir uma crescente frustração por se estar constantemente a sacrificar, o que a certa altura pode fazer com que esta pessoa passe a desajudar mais do que a ajudar o próximo, como fruto desse ressentimento, o que acaba por ser um comportamento prejudicial para si mesmo e para os outros.

Autoestima e amor próprio são duas capacidades distintas, mas ambas são muito importantes nesta reabilitação a nível criativo, assim como é estar num ambiente seguro que sirva de suporte complementar para a recuperação. O cinismo é outro dos entraves da criatividade pois apenas nos deita abaixo, ignora, ridícula e condena. É preciso parar de pedir que as nossas carências voltem, ou de fingir que os nossos relacionamentos funcionam na perfeição, quando no fundo sabemos que isso não é verdade. É necessário parar de estar chateado por estar perdido, stressado por não se encontrar trabalho, porque nunca é tarde demais para mudar, para passar a conhecermo-nos melhor por dentro e por fora, bem como passar a prestar mais atenção às nossas necessidades de carácter pessoal e consequentemente o alheio. Tudo é chave. Os nossos interesses também são chave nesta jornada, neste desbloqueamento de nós próprios enquanto seres humanos, criativos e artistas, tanto a nível individual como colectivo. Conhecermo-nos a nós próprios passa por alimentar uma alma para expressar, assim como escreveu o médico, dramaturgo e escritor russo Anton Tchecov, "Se queres trabalhar na tua arte, trabalha na tua vida.” Charlie Chaplin referiu muitas vezes ao longo da sua obra e vida que a capacidade para nos conseguirmos expressar passa pela construção precedente de uma identidade individual; um “eu” que nos representa e acompanha, e através do qual nos possamos exprimir. A nossa recuperação baseia-se no realinhamento da nossa identidade individual, e na percepção sobre quais os nossos valores e verdades. Caso contrário, continuaremos apenas a tentar impressionar ao invés de nos expressarmos verdadeiramente através do nosso âmago intrínseco. Acreditar em nós e no nosso processo criativo é evitar a auto sabotagem, e batalhar contra todos os nossos medos e vergonhas; é um processo que exige força e coragem de nossa parte, mas é provavelmente um dos únicos caminhos que nos pode levar à obtenção de maior consciência sobre o individual e colectivo. Abraçar a criatividade é uma quiroprática espiritual que passa muito por saber nutrir ao invés de deitar abaixo a nossa criança interior. Ao brincar com o nosso lado infantil e através da confiança no nosso mundo sensorial e intuitivo será possível alcançar e estar em contacto com a nossa voz interior, a voz da consciência. Brincar é exatamente isso, criar espaço para novas ideias e possibilidades, bem como esvaziar a nossa vida de distrações. De certo esta vontade será mais fácil de proclamar do que de realizar, mas suponho que será também por esse motivo que Cameron nos aconselha a termos muito “cuidado” e a “salvaguardarmos o nosso artista interior ainda prematuro”, dia após dia. A criatividade é delicada e facilmente quebrada por cairmos na tentação, seguir os planos de outros para nós, portanto devemos também saber determinar o tempo que precisamos pôr de parte para nós, para abraçarmos a nossa criatividade. Muitas vezes este tempo deixa de coexistir porque de repente “podes sentir que é preferível fazer outra coisa nesse espaço de tempo.”

O escritor e professor Americano Peter Duncker, escreveu "existem riscos que tu não podes correr, e existem riscos que tu não podes deixar de correr.” Acredito sinceramente que existe sempre a possibilidade de seres tão talentoso como secretamente desejas ser, e que de certo existiram muitas outras pessoas genuinamente criativas que se tenham sentido mal com elas mesmas, por duvidarem das suas capacidades e do seu talento, por causa de experiências passadas menos felizes.

O público em geral confunde a criatividade com a vida artística baseada na ilusão e na fantasia, mas de facto a criatividade advém da própria realidade aparente, e tal como qualquer meditação, a criatividade foca a nossa atenção no particular, no observador e no que é observado, bem como no que pode ser especificamente imaginado, que nos ajuda a atingir um grau de sabedoria que nos coloque mais atentos no aqui e no agora, para sermos capazes de ouvir melhor a nossa voz interior, ao invés do contrário. Abraçar a criatividade é passarmos a ter contacto com os nossos pensamentos, bem como passarmos a saber lidar com as nossas emoções, e com os nossos discursos e acções, que podem contribuir igualmente para a qualidade de vida de quem nos rodeia. O desejo da nossa própria cura pode eventualmente potenciar o surgimento de novos caminhos que passaram a curar não apenas nós próprios, mas também muitos outros que sofrem do mesmo. Abraçar a criatividade é abraçar uma mente plena onde tu começas a ser consciente de corpo e mente. Escreveu o poeta Americano Theodore Roethke "Deus nos abençoe e viva as nossas raízes em que o corpo e a mente são um só.”

É necessário observar e mandar cá para fora os pensamentos que tememos, para os aceitar simplesmente sem qualquer tipo de julgamento agregado e trazer o máximo possível para o momento presente. Damo-nos assim a oportunidade para apenas experienciar o prazer momentâneo. Abraçar a criatividade evoca as práticas espirituais e meditativas, cujas inúmeras técnicas possibilitam a abundância de vários benefícios holísticos.

No seu livro “The Artist Way” Cameron expressa o seguinte “a arte acontece no momento presente: no autoconhecimento de nós próprios e na sua expressão, tornamo-nos mais originais por nos tornarmos mais específicos, e daqui nasce a criação que torna o trabalho fluído. À medida que vamos ganhando ou compondo a nossa identidade criativa, vamos perdendo as falsas crenças que nos sustentavam anteriormente.” A criatividade pode ser abordada de forma mais ou menos espiritual, mas esta inclui sempre elementos de bondade, de amor e de compaixão ao serviço dos outros. O farmacêutico e escritor Dr. Joseph Murphy escreveu “O teu desejo é a tua reza. Visiona-o agora e sente que é real e irás experienciar o prazer momentâneo da tua prece atendida.” A arte está no presente e na vontade de expressar para o exterior aquilo que mexe connosco por dentro. Também por essa razão, a arte é uma via possível para a compreensão da nossa própria mente.

Se não quiseres desenhar podes criar uma imagem, imaginar a mesma, senti-la, ou quem sabe, trabalhar num sentimento particular que queiras explorar. Poderás fechar os olhos (ou não) para imaginar, para visualizar aquilo que fizer sentido para ti, bem como focar-te no teu corpo em movimento, podes multi-task ou concentrar-te apenas numa coisa de cada vez. A escolha é tua e os caminhos de criação são infinitos. A arte não é um problema matemático, é uma solução com possibilidades infinitas. A criatividade não é caprichosa, e tens montes de ideias para filmes, romances, poemas, teatro, música, entre outros meios. Já dizia o músico de jazz Charlie Parker “A musica é a tua experiência, os teus pensamentos, a tua sabedoria, logo se não a viveres é impossível tocares o teu instrumento.” Cantar é outra forma de se explorar a criatividade, bem como o mantra na espiritualidade, pois obriga-nos a concentrar-nos no aqui e no agora, no som do mundo, na melodia e no seu consequente significado. A criatividade faculta-nos amor, amigos, riquezas e propósitos. De acordo com a Psiquiatra Nise da Silveira “A sua saúde mental está nas suas mãos.” As actividades artísticas são um tratamento fundamental como uma forma de expressão da complexa problemática interna de cada um, e a criatividade é regenerativa porque proporciona bem-estar e transmutação, pois em qualquer individuo podem existir forças recreativas de amor e de entusiasmo humano. A Arte canaliza e exprime com franqueza, e por essa razão pode ser um caminho para ajudar a atenuar o sofrimento do nosso quotidiano.

"Tudo se resume sempre à mesma necessidade: se aprofundarmos o suficiente encontraremos uma laje de veracidade, mesmo que seja indispensável cavar muito para que consigamos lá chegar.”

– May Sarton