Capítulo XII

Abraçar a Criatividade - Parte I

De acordo com Julia Cameron, autora Americana do livro The Artist Way, a capacidade de confiar na criatividade que trazemos connosco e que está dentro de nós “é um processo iniciático para muitos”, e que ao início “pode parecer um pouco aterrorizador”. “Tal aplica-se não apenas a nós, bem como a quem nos está mais próximo.” “Podemos sentir-nos, e até parecer que somos erráticos.” Este eraticismo é dado como normal pois é parte envolvente do “processo de desbloqueamento do lamaçal que nos bloqueou.”

Confiar que somos criativos ou que temos a audácia para experimentar a nossa criatividade parte do princípio que é necessário estarmos de braços abertos e prontos a acolher, abraçar e nutrir o que no fundo desejamos, ou o que secretamente sonhamos. É dar a nós mesmos a autorização para nos encontrarmos com o nosso artista interior, com o nosso lado mais infantil, estando assim mais receptivos a novas possibilidades e a novos limites através da exploração da nossa imaginação, com menos receios do que possa vir a ser o resultado. Por esse motivo, é importante julgar menos e conferir sustento suficiente à nossa criança interior que ainda vamos a tempo de refazer. Pablo Picasso dizia que: “Cada criança é um artista, o obstáculo é permanecermos artistas depois de adultos.” A criatividade deve portanto ser abraçada e mantida nos nossos braços para que possamos tirar o maior partido desta sempre que assim seja possível. É mergulhar, apenas para perceber o que se passa. É um salto inexato que se tem que dar, de forma a descobrir o que pode acontecer, para depois registar os resultados sem a atribuição de um julgamento negativo.

Tal como foi referido acima nas palavra de Cameron “confiar na nossa criatividade” é de facto algo diferente e novo para a maior parte de nós e para a rotina do nosso quotidiano, pois não estamos fragilizados e definitivamente não estamos acostumados a dar importância suficiente às nossas necessidades de carácter pessoal, ou a dar asas às nossas aspirações, muito menos de trabalhamos no sentido de as nutrir. Na vida real a maioria das pessoas não dizem o que sentem, e o que sentem é revelado apenas de uma forma menos linear, sem dizerem o que pretendem verdadeiramente pensar. Ser artista é exatamente a exerção da capacidade de sentir. O artista torturado nasce daí, exatamente pelo facto de poder sentir, e quase como se a sua arte passasse também por revelar um velho segredo de família que é suposto manter-se em segredo até ao final da sua existência. No entanto, a abertura para a criatividade é permitir este intenso desejo de colocar tudo em causa, e de partir à descoberta do desconhecido de forma vulnerável e disponível para o que “der e vier.” Tal como acontece com o compromisso do casamento com alguém que se gosta, porque se coloca como implícito um grande voto de confiança. Abraçar a criatividade é também uma aposta cega na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, e apenas abraçando-a e respeitando-a com cada dia que passa, assim como em todos os dias da nossa vida, será possível a obtenção de resultados frutíferos. É ser-se guiado pelo sistema de navegação sem questionarmos se estamos no caminho certo e onde este vai desbocar. É explorar novos territórios “por mares nunca antes navegados”, e quem sabe reformular o nosso sistema de crenças, ao delinearmos novos limites que eram precedentemente inaceitáveis.

Abraçar a criatividade é entregares-te de corpo e de alma, de uma forma sensível, e por isso nos primeiros estágios da tua recuperação estarás vulnerável a experienciar tremores, transpirações, ansiedade ou uma frequência cardíaca acelerada. A dependência física ao que estamos habitamos é enorme, e a quebra desse habito, a cadência perante as nossas dependências funciona fisicamente como qualquer reabilitação apos a interrupção do uso de álcool ou de drogas, em que se sente uma sensação de peso sem medida "um poder desmesurável dentro de nós, do nosso corpo onde experienciamos picos de energia,” e a alteração constante de humor podendo “oscilar facilmente da raiva para o prazer ou para dor” expressa Cameron. “Pode parecer-nos inicialmente bastante assustador, não só para nós, mas também para quem convive connosco”. Comportamentos estranhos, confusão mental, náuseas, desmaios ou ataques são todos reconhecidos como “sintomas consequentes deste fluxo e refluxo”, que Cameron nos instiga a experimentar sem resistências. “Podes sentir-te errático ou parecê-lo”, mas “(...) este eraticismo faz parte do processo de libertação que consiste em remover a sujeira onde nos encontrávamos e que nos estava a bloquear.” Cameron alerta-nos sobre este fenómeno no início do livro The Artist Way, como se este processo se tratasse de uma batalha contra a doença e essa “batalha pela doença inicialmente faz-nos sentir mais loucos”, ainda que na perspectiva de quem está de fora até possa parecer que talvez tenhas enlouquecido de vez! No entanto, de acordo com Cameron, o que se pretende é a aceitação do agora, e de “(...) teres conscientemente a audácia de experimentares a tua criatividade ao deixares-te levar pela experiencia em si de espirito aberto.” Logo, os primeiros estágios da tua regeneração incluem a tomada de acçao sobre algo que previamente te costumava envergonhar; a sensação é parecida com a de partilhares o teu diário pessoal com um público desconhecido. Isto pode parecer particularmente assustador para quem tem por hábito preocupar-se com aquilo que os outros pensam, ou para alguém que tenha experimentado antecedentemente qualquer tipo de vergonha ou estigma relacionado com alguma experiência social, sexual ou espiritual.

No mundo actual em que vivemos, somos continuamente impedidos pelos nossos pais, educadores, amigos, afectos, e pela sociedade em geral de nos comportarmos de certas e determinadas maneiras que possam causar vergonha. Independentemente do que for ou de que maneira, esta vergonha toma forma, e acaba sempre por nos fazer sentir envergonhados por algo que somos ou por algo que fizemos, e consequentemente acabamos por nos sentir de facto envergonhados. Esta vergonha é muitas vezes subconsciente e permanece connosco por um motivo enraizado. Carl G. Jung, o Psiquiatra e Psicanalítico Suíço que fundou a Psicologia Analítica, escreveu nas suas reflexões: “A regra psicológica diz que quando uma situação interior não é tornada consciente, ela é exteriorizada, como fatalidade.” Mesmo se tornada consciente, é preciso muita coragem e audácia para quebrar o padrão, porque tendemos a pensar que os nossos sonhos criativos nos iludem, porque são sempre egocêntricos e provindos de algo interno, chegando ao ponto de achar que nem Deus os iria aprovar. Temos receio de forma geral, e ao invés de pensarmos de uma maneira mais ousada, a tendência é levarmos tudo para a defensiva e para o negativismo, por isso “não é difícil imaginar o quanto conflituoso pode ser no início, quando de facto começas a acreditar que existe um lugar certo para ti”, tal como expõe Cameron. Segundo Cameron o criativo bloqueado também pode ser facilmente manipulado pela culpa, especialmente por quem nos é mais familiar. Pois estas pessoas mais familiares “podem sentir-se abandonadas pelo nosso afastamento precoce da afinidade, o que os pode “inconscientemente levar a fazer-nos sentir mal” de diversas maneiras o que consequentemente nos pode levar à provocação e de “abandonarmos os nossos novos hábitos saudáveis.” Cameron explica que isto apenas acontece porque “os teus amigos bloqueados podem considerar o teu desbloqueamento como incomodativo pois este pode vir a intimidar os mesmos pela possibilidade que eles também podem vir a mudar, ao “optar por tomar o risco de se abrirem a essa possibilidade”, de também eles abraçarem a criatividade em vez de continuarem incrédulos no “corte e costura”, fechados ou restringidos ao seu mundinho tacanho, ou no seu pensamento limitativo, se assim for o caso. Cameron acautela que “não deves esperar que os teus amigos bloqueados aplaudam a tua recuperação, pois isso seria o mesmo que esperar que os teus amigos lá do bar fossem todos celebrar a tua sobriedade com uma rodada de tequila.” Como podem eles fazê-lo, se a bebida é algo que eles querem manter?