Capítulo XII

Não deixes que os bastardos te derrubem!


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“ A maior glória da vida não é nunca cairmos, mas levantarmo-nos de cada queda.” - Nelson Mandela

Ser artista faz de ti um idealista, mas quando te apercebes de que as coisas na verdade não são bem o que parecem ser à primeira instância, quando a vida acaba por não cooperar contigo, com a tua forma de pensar, podes facilmente atormentar-te e ti mesmo e tornares-te numa espécie de mártire. Recarregar baterias é essencial para conseguir seguir em frente e para depois agir. Nunca te esqueças de que é sempre necessário continuar a dar aos outros, porque quando das o que tens sem estar à espera de receber, podes ser um verdadeiro modelo a ter em conta. Contudo, é igualmente necessário ter a noção de que a tua demasia, a tua parvoíce, a tua tendência de querer carregar no acelerador, a tua dramaturgia, empreendimentos arriscados, ousados, altruístas ou excentricidade a mais podem por vezes, facilmente assustar ou aborrecer os outros, ou por outro lado, os outros podem aproveitar-se de ti, assim como da tua ajuda. A tua forma de ser original ou as tuas opiniões de incentivo podem ser interpretadas pelos outros como uma ameaça. A tua singularidade e opiniões podem ser entendidas como uma intimidação. Apesar de teres a melhor das intenções, a tua forma de expressão para o exterior pode ser interpretada como evasiva, o que posteriormente pode reactivar a tua possessividade, o que acaba por sufocar quem te rodeia com o grau de atenção exagerada que passas a exercer. Consequentemente, tudo termina em abafamento e repressão. Os artistas são, na sua maioria, grandes guerreiros. Quando as suas emoções estão à flor da pele, podem tornar-se explosivos. Eles são conhecidos por serem impulsivos, distraídos, descuidados, irresponsáveis com as atitudes que tomam, imprudentes, insensatos e irrealistas, difíceis de lidar com e rudes nas palavras ásperas que recorrem contra a oposição. Tudo isto faz com que os artistas sejam considerados de certa forma, como pessoas duvidosas. Estes são os loucos a qual Steve Jobs se refere no artigo anterior. Faz parte da vida encontrar pessoas que te vão tentar reduzir para conseguirem manter o controlo e a sua posição de poder, caso se sentirem ameaçados. Inúmeros foram os criativos ao longo da história da humanidade enfrentaram perdas e danos com muito prejuízo.

Muitos foram acusados de serem demasiado emotivos, egoístas ou bloqueados. Ao longo dos séculos, a maioria dos artistas torturados sofreram bastante durante as suas vidas por diversos motivos, nomeadamente, pela vergonha, pelo medo, pela critica, por incompreensão, por opressão, ou pelo sistema político em vigor que os faziam sentir for a do baralho, devido à sua natureza irreverente e visionária.

A autora Julia Cameron defende que as criações artísticas são as nossas crianças cerebrais, enquanto as perdas artísticas são abortos. Uma mulher sofre de forma terrível e privada ao perder uma criança que não chega a nascer, tal como os artistas sofrem terrivelmente quando o livro não vende, o filme não tem receptividade, as pinturas não são escolhidas, os poemas não são lidos, assim como um problema de saúde pode paralisar uma época inteira de dança. Estes abortos podem transformar-se em feridas por sarar, que com o avançar do tempo podem deixar grandes cicatrizes e marcas que acabam por futuramente bloquear ou enfraquecer o desenvolvimento artístico. Segundo Cameron, autora do livro The Artist Way, estes “abortos” são “demasiado dolosos, estúpidos e humilhantes para partilhar, logo são mais difíceis de curar. Para as feridas sararem é necessário não só conscientizar, mas também partilhar. No sentido em que apenas após o segredo desvendado através da partilha, será possível sarar a ferida e seguir em frente. Neste sentido, de acordo com Júlia Cameron, quando as feridas não são convenientemente conciliadas, estas feridas, “tornam se perdas ou dores secretas” que por sua vez só servem para te ofuscar e para te deixar perdido nesta espécie de arco-íris irreal que de facto não existe sem ser para te devastar, destroçar e para te deixar coxo. Tudo isto é sofrimento demais, mas estar dentro do quadro do teu enquadramento. É a forma e o preço a pagar pela ilusão que nunca se torna ao fim do cabo real. Este tipo de ilusão é certamente aquele que te deixa sem chão, sem fé, que te faz pensar: porquê eu? Como se o azar te perseguisse…, mas não. Por vezes ate te sentirás transtornado pelas razões erradas, ou nunca pelas razoes que imaginas ter. As tuas emoções são assim despoletadas pelos muitos padrões e crenças construídas pelo medo e pela culpa, que estão subconscientemente interiorizadas dentro de ti. É aquilo que acreditas ser a causa do teu sofrimento e apenas o catalisador momentâneo do muito lixo emocional e mental que acumulaste dentro de ti. Não poderás ter paz, enquanto guardares estas mágoas dentro de ti, portanto estas “perdas secretas”, “estes abortos” esta ilusão e este arco-íris na verdade só existe no aqui e no agora. Enquanto não canalizares essa pessoa, relacionamento, ideia, situação ou medo para fora de ti. A parte da mente castradora e intolerável não será a tua libertação, antes pelo contrário.

A raiva ou revolta como emoções dizem-te exatamente isso: chega! Chega de seres sufocado … Deves escolher libertar-te dessa pessoa, circunstância, situação ou coisa. Provavelmente também deves ultrapassar os termos de responsabilidade por qualquer dano que te tenha sido causado porque por de trás de tudo há uma outra causa, um medo ou culpa enraizado no teu inconsciente. A revolta diz-te que deves parar de estar bloqueado e tomado entre o medo da ação e o medo de falhar. A revolta não é a ação em si, mas o convite para agir. Agora eu acredito que essa mesma ilusão que te derruba é provavelmente a mesma ilusão que te salva, portanto nunca deixes que os bastardos de deitem abaixo!

A ilusão no sua pior versão é devastadora e esgotante; faz te chorar, resfria-te e envergonha-te quando te deixa de rastos e te deita ao chão de uma forma crua e dura e até nua perante o exterior. A cantora Natalie Imbruglia canta brilhantemente essa mesma analogia no tema da sua música “torn”. Podes até carregar essa cruz contigo, através das tuas várias experiências, crenças, ideias, ideais que possam ter surgido de medos, culpas de acontecimentos ou circunstâncias passadas e construídas em última instância a partir da teu tremendo excesso de mente. É um processo complicado, com muito luto, sofrimento, tristeza, perda de tempo e perdas secretas que deixam cinzas.

“A morte é mais universal do que a vida; todo o mundo e a esperança se levanta como a ave fênix, desde as cinzas dos sonhos perdidos” escreveu S.A Sachs. Por outras palavras, a luz que desabrocha no final do túnel é uma forma de fé, ainda que seja de certa maneira, uma ilusão. Este é o tipo de ilusão que te dará ânsia de viver e o desejo de lutar pela vida. Rumi escreveu “Viste a minha queda, agora vê-me renascer” ao mesmo tempo que Einstein nos explicou que tempo e o espaço não existe, bem como a própria felicidade vai e volta, a vida é simplesmente uma ilusão, contudo parafraseando Emily Esfahani Smith no seu Ted talk (There’s more to life than just being happy) a verdade é que a quando a vida é realmente boa e as coisas correm mal, esses acontecimentos têm significado e dão-nos algo a qual nos agarrarmos para o impulso da mudança, que não é necessariamente agradável. Esta história de embalar a qual chamamos vida acaba por ser uma ilusão, assim como o significado das coisas é igualmente uma ilusão, contudo estou convencida de que este conto da vida retrata o tipo de história e o significado que esta representa para além de ti e dos teus amores; das tuas pessoas, mas fala sobre algo que esta acima da azáfama da vida quotidiana do dia-a-dia, fazendo com que a tua activa e poderosa mente; o teu ego, dissolva. Consequentemente, a mesma ilusão que te pode fazer falhar, que te mata aos poucos quando conectada com algo maior, pode igualmente transcender-te. Esta ilusão pode em última instância tornar-se em transcendência. A transcendência pode advir de Deus, de uma Deusa ou de várias entidades, incluindo de ti mesmo, do Universo ou qualquer religião ou igreja que funcione para ti, mas esta mesma transcendência pode também emergir da arte, através da arquitectura, escultura, pintura, poesia, música, dança, através da escrita, ou inúmeras outras formas de expressão. É qualquer coisa que te faça sentir a perda da noção do tempo e do espaço. Segundo Pablo Picasso “A arte lava a alma e a poeira do dia-a-dia”, logo para o pior ou para o melhor, a arte, e consequentemente, as tuas perdas secretas, as ilusões, todas te forçam sempre ao encontro da mudança. Por última instância, esta ilusão não é nem mais nem menos, do que a nossa imaginação, sendo que é onde a espiritualidade se encontra com a criatividade e transmuta pela genialidade porque implica o surgimento dos raros momentos quando tu realizas que não terás paz enquanto continuares a perseguir as tuas dores, o abandono, ou o teu coração partido. A escritora Inglesa Emily Smith escreveu que “estas experiências transcendentais podem mudar-te e levar-te a encontrar aquilo que te sustenta” caso escolhas libertar-te de todas as memórias dolorosas; dos proveitos, das perdas e por aí fora. Não vais mudar a tua história de um dia para o outro. Smith escreveu que pode levar anos, mas abraçar a tua história pode levar-te a atingir uma nova sabedoria bem como provavelmente te pode dar a razão de lutares pela vida. Continuar a viver começa e acaba sempre com amor. Segundo Rumi “O amor é a ponte entre ti e tudo o resto ”por isso não deixes que esses bastardos interfiram, “O teu coração sabe o caminho. Percorre essa direcção.”