Capítulo XII

O Mapa Verde


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“Vão odiar-te caso sejas bonito/a. Vão odiar-te caso tenhas sucesso. Vão odiar-te caso sejas popular. Vão odiar-te por dares nas vistas. Vão odiar-te caso estas certo/a. Vão odiar-te quando recebes atenção. Vão odiar-te por as pessoas de quem elas gostam, gostarem de ti. Vão odiar-te caso acredites noutro Deus que não seja o deles. Uma versão diferente da deles. Vão odiar que tenhas uma opinião. Vão odiar-te quando os outros te ajudam. Vão odiar ver-te contente. Vão odiar-te ao mesmo tempo em que partilham afirmações, rezas ou frases religiosas no facebook ou redes sociais. Apenas sabem odiar. No entanto, lembra-te que só te odeiam porque tu representas algo que eles não têm. Não é pessoal ou sobre ti especificamente. É sobre o ódio que têm para com eles próprios. Por isso hoje sorri, porque existe algo que estas a fazer que está certo, para que tenhas tantas pessoas a pensarem sobre ti.” — Shannon L Adler

A mais desagradável das verdades é que: independentemente das circunstâncias, e em determinadas alturas das nossas vidas, as pessoas vão sempre “odiar-te”, sobretudo amigos ditos com “mau feitio”, com personalidades mais fortes ou vincadas, pois podem tornar-se mais relutantes e reactivos à tua exposição (para eles motivo de irritação) devido a uma certa comichão que poderão sentir por dares nas vistas, seres especial e surpreendentemente diferente. É espantoso para não dizer ridículo, mas ao invés de certas pessoas se sentirem “inspiradas”, ficam “verdes”, só de imaginarem que talvez “estejas sempre a viajar” e mesmo que essa viagem para qual acordes diariamente não passe de uma “viagem pela maionese”, os outros, a certo ponto nas nossas vidas, podem achar que o teu dia-a-dia é mais agradável do que o deles, porque realisticamente a vida deles é seria e rotineira. No entanto isso incomoda-os, porque um dia eles também tiveram um “sonho”, aliás, eles “costumavam ter um sonho” que por alguma razão está esquecido ou quem sabe, poderá ainda estar por realizar.

“Realisticamente impossível”, é o que te irão dizer vezes sem conta, e quando possuídos por este “sentimento de cor verde”, faz com que tentem, até por vezes, sem qualquer tipo de intenção conscientemente maldosa, roubar o teu brio ou o teu sucesso. Normalmente “inventam” mil uma razões e todo o género de justificações para não poderem fazer X, Y ou Z; e que comparativamente à tua vida, te dizerem que “tiveste ou tens, todos os apoios necessários e possibilidades que eles não têm e que não esperam vir a ter para todo e qualquer efeito; para alem de que, obviamente “tu não tens as mesmas responsabilidades que eles têm”, entre outras justificações de comparação.

O que Shannon L Adler nos tenta expressar no texto que inicia este capítulo, é que as reações de inveja não são uma afronta pessoal, e portanto não devemos “levar à letra” e muito menos reagir a todo e a qualquer tipo de opinião ou “bate bocas” provindos de mesquinhez e desagrado. A crítica pode ser encarada como algo construtivo. Esta intemporal “vergonhosa orquestra sinfónica verde” pode resultar em situações críticas e desagradáveis para ambas as partes, de forma a que será necessário compreender que as pessoas que criticam os feitos dos outros, se sentem autocriticadas elas próprias, por uma série de motivos subconscientes. Talvez por continuem na “mesma como a lesma” e por esse motivo se tornar tendencialmente mais propício ficar “verde de inveja”, apesar de esta não passar de uma desculpa para essas pessoas se sentirem melhores com elas mesmas. Por outro lado, a pessoa criticada, muitas vezes “adora” fazer-se de vítima perante este tipo de críticas e crenças falsas por parte de outros. Deixa-se facilmente manipular por outros, e por estar desiludida com as pessoas e com o mundo à sua volta, acredita que ainda não “é suficiente”. Inconsciente de que existe um padrão possível de quebrar, vai se assumindo cada vez “mais verde de inveja” ao longo do tempo. No entanto, tal como acima descrito por Alder, nem todas as críticas são necessariamente más e quando estas te acertam “na muche” deves até “sorrir”. Como artistas, tais críticas podem mostrar-te um novo caminho, mais verdejante, mais válido a seguir, e com tanta gente a “chamar-te pelo Nome” existe algo estás a fazer que definitivamente está certo.

Segundo diz Júlia Cameron, no seu livro o Caminho do Artista, “é uma coisa muito comum que os criativos fazem; evitarem ser criativos” para além de que é também comum às pessoas mais criativas envolverem-se com “crazymakers” nas suas vidas”, que a Autora descreve como “personalidades que gostam de dramas”; “gastam o teu tempo” e “dinheiro”; “quebram promessas”; “destroem agendas”; “esperam tratamento especial” e “fora de horas”; “descontam a tua realidade” e no final de tudo, veem-te ou fazem de ti “a pessoa maluca” ou “problemática”. Deixar-te enfeitiçar ou mesmo envenenar por estes “monstrinhos de olhos verdesoutros mais venenosos, normalmente pessoas estas que são também criativas ainda bloqueadas”, diz Júlia Cameron, no Caminho do Artista. Por isso, de Artista para Artista, é necessário “não esperar aplausos” da parte destes, pois lá no fundo poderão sentir-se até ameaçados por de repente começares a expressar-te de forma diferente, por te sentires mais “capaz de lhes dizeres não”. Por usares o teu tempo de forma mais “egoísta”, mais adequada, às tuas necessidades e talvez por conseguires investir o teu tempo em algum projecto que seja significativo, e em qual te imaginas a contribuir em prol de um bem comum, e com um propósito especial neste mundo.

Inveja e Ciúme, ambos de significado semelhante, apesar do ciúme ir mais de encontro com o “medo de vir a perder” ou ser-se traído por outrem, enquanto, a inveja, revela-se quando uma pessoa deseja obter algo que o outro tem, ou inveja os feitos de outrem. Ambas as “verdes” presentes desde o início da história da humanidade têm vindo a assumir-se em diferentes níveis, formas e formatos durante as várias civilizações ao longo dos séculos. Esta doença verde tem sido relatada pelo mundo fora desde A.C., por Gil Ganhes, pela própria Bíblia, passando por Shakespeare, até à modernidade, às novelas ou séries de televisão, entre outras formas de arte.

William Shakespeare é usualmente creditado como criador da ideia de que uma pessoa se tornava verde de inveja/ciúme, mas já em tempos Geoffrey Chaucer teria precedido a tal associação, e ainda na Antiguidade, os Gregos já se utilizavam dela, sendo o dito por Kate Smith que David Feldman, no livro “Quem pôs a manteiga na Borboleta?”, afirma que era costume durante a civilização Grega, utilizar um determinado termo que significava “pálido” aquando “verde”, a fim de querem dizer “doentio” pois pensavam que quando se estava doente com ciúme, o corpo produzia muita bile, o que deixaria a pele com um tom “esverdeado”. A “doença verde” foi também referida na carta de Tiago 3,14-16 aos discípulos da Bíblia, “14 Mas, se tendes amargo ciúme e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. 15 Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. 16 Porque onde há ciúme e sentimento faccioso, aí há confusão e toda obra maléfica

A patologia feminil caracterizada por uma palidez esverdinhada e excessiva fraqueza foi realmente abordada por vários artistas e formas de arte ao logo da nossa história, como acima descrito, no entanto, o “monstro dos olhos verdes”, é uma ideia originaria de Shakespeare, para descrever personagens com ciúmes, e terá sido inspirada num gato de olhos verdes, a brincar com a sua presa. O “monstro”, é uma excelente imagem e metáfora atribuída a este sentimento de “dor de cotovelo” e “descontentamento” temporário, quando alguém se encontra “verde de ciúme”, consumido ou dominado por esta força maior à condição humana. Neste caso, A pessoa é “mordida” por um “monstro de olhos verdes” que a deixa “doente” “anémica” ou “fora de si” por um certo período de tempo e a tendência é o corpo assumir a cor “verde” como se de uma “nódoa” neste caso “verde” ou como de um envenenamento se tratasse (na sua obra propriamente dita, o ciúme é usualmente caracterizado pelo medo de vir a perder de alguém de quem se ama ou por infidelidade numa relação amorosa). Ciúme, tal como Shakespeare o aborda na sua obra literária, é um sentimento de resiliência perante outrem, de caráter emotivo e rival entre as pessoas, propício a erupções explosivas momentâneas, pelas quais a pessoa sente-se no direito de tomar certas e determinadas acções mais subgéneros, quando possuídas por este monstro ou o próprio diabo encarnado sem si próprio". A referencia à “cor Verde de ciúme” é mencionada pelo menos três vezes por Shakespeare na sua obra; no “Mercante de Veneza” onde se refere o “ciúme dos olhos verdes”; no “Anthony e Cleópatra”, onde fala sobre a “doença verde”, e por fim em “Otelo”, onde nos apresenta oficialmente o “monstro dos olhos verdes”: “O! Cuidado, meu senhor, de inveja ; ele é o monstro de olhos verdes, que zomba da carne de que se alimenta.” Posteriormente a Bardo, outros escritores Anglófonos, também se valeram de tal uso; exemplo disso, é Mark Twain, que no século XVIII, completou o colorir desta expressão transformando-a em “verde de inveja “ou “verde merlim”, na sua obra, “Um Ianque de Connecticut na Corte do Rei Arthur” - “Isso deixou Brer Merlim verde de inveja e rancor o que foi uma grande satisfação para mim” referindo-se à satisfação que a inveja provoca em alguém; sendo esta uma emoção que provoca um sentimento de pose, de vontade de possuir algo ou alguém, um desejo profundo de aquisição de algo perante outrem, por comparação, ambição ou quem sabe vingança ou competição. Esta emoção de condição humana é por vezes associada aquele velho amigo, ou “velho do restelo” e envolve sempre uma experiencia emocional “de excesso de mente”, domínio ou controlo por parte desta, que torna a pessoa infeliz, quando comparada perante outros, por estes terem mais vantagens, posses, talentos ou habilidades que a pessoa em questão. Sentimento este colectivo de insegurança, ou inferioridade, uma falsa crença de ser-se “pior”, “não tão competente”, “forte” ou “suficiente” em relação aos outros, sejam estes ou não de culturas diferentes.

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O “fascínio do verde” entre artistas e audiências tem prevalecido até aos tempos presentes como um dos melhores defeitos de ser-se humano. Energia esta que é invencível ao longo das décadas; vai de facto ao encontro dos nossos desejos e é base combustível a nosso favor. Esta gasolina dá-nos a possibilidade de agir quando a acção é verdadeiramente a chave em direcção à liberdade. Paradoxalmente, o verde é também a cor da esperança, sendo que a mudança começa pela acção de se conseguir dar pequenos passos em frente. Naturalmente, pequenos passos originam grandes mudanças.

O “monstro dos olhos verdes” tem se assumido como um amigo de longa data para mim. Ironicamente, a minha cor preferida é o verde e sou de signo escorpião, signo este muito associado com o facto de se “ficar verde de inveja ou de ciúme”. O ciúme no escorpião é de facto activado pelo tal “gato de olhos verdes”, que aparece de tempos em tempos para nos ameaçar, para nos “arranhar” e quando de facto nos “arranha”, esse arranhão deixa-nos “verdes de inveja”, de tal forma que nos leva a afastar a pessoa, situação, ou seja lá o que for que amamos pelo medo de a perdemos. No caso concreto do Escorpião, segundo conta a lenda, este só não mata o outro como também se mata a si próprio. Eu acredito que o “monstro dos olhos verdes” tem sido para mim aquele demónio que me possuía, e que me batia à porta de vez enquanto, só para me relembrar, sem aviso prévio e sem qualquer critério, que não tinha outra hipótese ou saída possível a não ser sentir ciúmes. Durante décadas, “Verde, a cor da inveja” incapacitou-me de ver mais longe, mais além, e em perspectiva, até que finalmente um dia enquanto lia o livro “O Caminho do Artista”, de Júlia Cameron, o “véu que me tapava os olhos caiu” e nessa altura, foi possível observar com outros “olhos” e assim aperceber-me pela primeira vez de que este “monstro verde” era apenas uma imagem “ilusória”, uma crença falsa, não um facto e por isso era um conceito possível de transformar. A partir desse momento consegui identificar e dissolver certos e determinados padrões até então inconscientes ou impossíveis de mudar, para consequentemente tomar as acções necessárias perante as situações que até à data me impediam de avançar, no sentido de libertação. Pois até aquele momento, eu caminhava “cega” na tal “floresta verde” e obscura, à procura de uma chave que no fundo era “impossível de ser avistada”. No entanto, a certa altura, quando me debrucei sobre a ideia de que o “ciúme é apenas uma mascara verde” que, segundo Júlia Cameron, encobre “o medo de não sermos capazes de obter aquilo que queremos, frustração, que alguém parece obter o que é nosso de direito, mesmo que estejamos aterrorizados de o alcançar”; nesse dia a chave da liberdade apresentou um mundo de possibilidades que de repente se abriu ao meu encontro, quando comecei a perceber que a “cor verde da inveja é a mesma cor que está associada à esperança”, e que a esperança pode transmutar o sentimento de ciúme e de inveja para algo positivo. O ciúme é apenas “um mapa verde” que “começa com a inveja” e “acaba em esperança”. Sendo o partir para a “acção” e posteriormente o desenrolar da “acção” ao invés da reacção; o “fio condutor” entre o ponto de partida e a chegada. Neste contexto, a minha “esperança” é de que de Artista para Artista e em nome da criatividade, vos seja possível a partir de agora usar este mapa verde a vosso favor, de uma forma mais divertida e sem tanto esforço ou ressentimento, em prol de um modus vivendi colectivo que se alicerça na harmonia, na boa índole e na esperança.