Capítulo XII

Filosofia da Peixaria - À Procura de Nemo


Responsive image

Já Luís de Camões nos dizia em meados do século XV, no terceiro canto da sua obra literária "Os Lusíadas":

“Eis aqui, quase cume da cabeça
de Europa toda, o Reino Lusitano,
onde a terra se acaba e o mar começa (…)”

Hoje em dia é possível visitar o Cabo da Roca, mas séculos atrás este lugar era apenas alcançado através da imaginação, portanto de "Artista" para "Artista" e em prol do "Artista", diria eu que esta "viagem" ao mundo da criatividade começa por aqui, da mesma forma que Luís de Camões em tempos nos descreveu e para tal ouso subscrever de suas palavras quando me parece a mim que "eis.." que a Criatividade começa "aqui" mesmo onde a terra acaba e o mar começa. Mar, Rio ou qualquer que seja a "forma da água" que se assume neste momento perante ou quem sabe por de dentro de si. Há muito sabemos que apenas mergulhando, conseguimos avistar novos portos e rumar mar adentro ou talvez por fora em "mares nunca dantes navegados"... pode parecer bastante assustador especialmente quando nos deparamos com o dito "Adamastor" em alto mar. No entanto, apenas por aqui será possível alcançar a real expansão, na contingência, bem como a descoberta de que afinal até sabemos nadar em cardumes, através da cocriação que nos possibilita navegar juntos no mesmo sentido, de maneira criativa, expansiva, provavelmente invertida mas claramente de forma divertida. Pena é constatar que cada vez mais biliões de nós, sentem-se retraídos, tomados, ou mesmo aprisionados, capturados em terra por este "velho do Restelo" que nos alerta constantemente dos perigos adjacentes das marés e da sua "forma de água", e dos milhares de cardumes de peixes perdidos em alto mar que na verdade apenas nadam para não se afogarem, neste "Mar" onde passo à expressão: "Salve-se quem puder!!!..." e onde cada "Nemo" nada por si, mesmo que este se encontre num estado de choque e todo " mijiadinho" ..."Eis" então a questão que se coloca:

O que amedrontará verdadeiramente os nossos peixinhos? O que será que os detém? E porque será que eles permanecem amarrados até hoje mas no entanto insistem em nadar em direcções opostas no que diz respeito a uma perspectiva de "Artista" para "Artista" e em prol da Criatividade? Bem como simplesmente para ti, para mim, ou nós, para os nossos amantes e todos aqueles que fazem de alguma forma parte das nossas vidas, que por última instância, não nasceram necessariamente neste mês dedicado ao signo peixes?

De Artista para Artista, tenho a sensação de que o quanto mais abertos estivermos perante o que significa realmente co-criar em conjunto, de forma expansiva, divertida e o quanto mais disponíveis e conscientes estivermos sobre as nossas percepções ou ideias preconcebidas sobre aquilo que realmente está para além de nós, mais livres estaremos para alcançar ou talvez para até saltar em direção a este "fora de pista" onde a Criatividade inevitavelmente nos coloca. Consequentemente seremos mais capacitados de tomarmos decisões, bem como de actuarmos criativamente e mais efusivamente perante esta imensidão de possibilidades optando por escolhas mais baseadas no amor em vez do medo. Tal como, Júlia Cameron descreve, na sua obra do "caminho do artista":

"Qualquer pessoa honesta o suficiente te dirá que a possibilidade é bem mais aterrorizante do que a impossibilidade. Que a condição de liberdade é bastante mais condicionada do que qualquer prisão". E que se "de facto tivermos que lidar" com uma "força" sobrenatural que "vá para além de nós" e que por isso sai fora do nosso controlo, mas que no entanto não deixa de se "envolver" e de certa maneira "condicionar as nossas vidas" pode facilmente adquirir uma dimensão extremamente "assustadora" especialmente pelo facto de nos obrigar a agir perante desejos, e sob a forma de "sonhos nunca antes concebidos" ou pesadelos dados como "impossíveis"...

Dito isto, não será difícil de perceber que a compreensão desta nova linguagem não verbal dos sonhos pode muito bem vir a ajudar-nos de maneira eficaz neste regresso ao nosso passado. Esta linguagem passa por nos relembrar sobre quem somos e ajuda-nos a descobrir ou a desbravar comichões antigas, mas em todo o caso põe-nos sempre em contacto com a nossa própria essência, sabedoria ou lógica da nossa própria alma, portanto este "algo" que normalmente se apresenta sem forma ou sentido mas que vem de dentro, é sempre, para todo e qualquer efeito, um sentimento sincero e autêntico. Esta linguagem não verbal poderá ser adquirida através da imaginação bem como a partir de práticas espirituais que no fundo nos ajudam a limar, bem como, a dissolver o que é artificial e desnecessário em nós. Em última análise, este dito "anzol" é sempre criado e lançado ao "mar" por nós próprios de maneira a capturar os outros, ou então acertamos em nós próprios.

Uma das minhas frases preferidas do livro "o caminho do artista" fala exatamente sobre isto, sobre o facto do meio artístico e certos Artistas terem a tendência de se assumir como "tubarões espirituais" mas a "verdade pura e dura" é que mal paramos de nadar somos rapidamente sugados até ao fundo do mar e facilmente ali "morremos afogados " ... sejamos nós ou outros os capturados, toca a todos passar a ser alvo de outros tubarões de superior ou igual calibre, ou até mesmo passarmos a temer nossa própria a sombra. Quanto a este tema, Julia Cameron aconselha-nos a "nunca parar" de "nadar", pois a probabilidade de afogamento ao sermos "sugados" para o "fundo" e de "morrer", é bastante alta.

É provavelmente pela mesma razão que na animação cinematográfia" À procura de Nemo" da Disney, o perdido e confuso peixe palhaço Marlin é constantemente incentivado a não parar de nadar ao longo de todo o filme. "Nemo" deve nadar em busca de um propósito e consequentemente em busca de si próprio e de facto à medida em que nada, lá se vai encontrando pouco a pouco. Já Carl Yung em tempos nos ensinou que:

O facto das "coisas durarem depende muito do seu significado" e consequentemente do "valor que lhes atribuímos".

No entanto, desde a memorável estreia televisiva do filme de ficção científica "20.000 metros debaixo da superfície da água" criada por Jules Vernes, que ficámos familiarizados com a origem latina da palavra "Nemo", que por sua vez significa "ninguém". Isto leva-me a concluir que não deveremos continuar a nadar em cardumes meramente por nadar, e à espera de que a vida seja longa e com saúde. Necessitamos sim, de passar a imaginar como poderia ser em caso de extrema felicidade? Quem sabe, se realmente ganhássemos o Euromilhões e por aí a fora...

O magnetismo maior das nossas projeções e dos nos nossos próprios pensamentos pode-nos ajudar nesta viagem até à criatividade, de forma a sairmos do "bairro", e quem sabe, da "peixaria da esquina", para um mundo mais expansivo e expressivo, mais aberto, amplo e por isso mais criativo, com maiores probabilidades de troca de experiências criativas, sejam estas de caráter cultural, científico ou artístico. Parece-me a mim bastante mais interessante este conceito de "aldeia global" do que propriamente acartar com uma vida de encargos, responsabilidades, sacrifícios e deveres sem qualquer propósito maior. Trocamos a nossa liberdade individual e coletiva por segurança para afinal de contas descobrirmos que nunca passamos de simples "Nemos”, pois o anzol continua a ser lançado, e a qualquer momento poderemos ser "pescados" por outros ou por nós próprios e ir ao fundo. Pierro Ferruci chama-nos a atenção para a: "quantidade de vezes que mesmo antes de executarmos determinada tarefa, a declaramos como impossível?" e com que frequência nos afirmamos inadequados" de realizar a execução da mesma?

A persistência sobre este tipo de afirmações perante outros e nós próprios acaba por qualificar ou definir à priori os nossos atos ou omissões, pois grande parte do nosso sucesso depende consequente destes pensamentos padrão. Contudo, o facto de falamos em Criatividade, coloca-nos inevitavelmente perante subjectividade e perante a espiritualidade. A falta de barreiras ou de critério, de sacrifício, desilusão ou ilusão, são todas definições que podem emergir dentro deste universo. De facto somos "pequenos" perante este cenário, esta "forma de água" fantástica e infinita; este mar de nevoeiro agitado com ondas em movimento que facilmente nos transporta para o ”Caos" e desencadeia em nós emoções, lágrimas e até sentimentos de vingança. Porém, estas mesmas águas em evaporação acabam muitas vezes por nos renovar e quem sabe até curar, pelo seu lado divino que exerce sobre nós, que pode ser concebido através do banho, da dadiva da música ou do poder da arte em si. Tanto que Michele Shea descreve que: "A criatividade é conseguir ver aquilo que ainda não existe; cabe-nos a nós partir à descoberta de como melhor expressar" - esta força maior, comunicar estas ideias para com o mundo real de forma a expressar com sucesso estes "momentos partilhados entre nós e Deus".

A Criatividade relembra-nos que o tempo é uma ilusão, e que o infinito é verdadeiramente a nossa única realidade. Este é o combustível da nossa sociedade moderna bem como a base dos nossos sonhos e imaginação, pois serve de motor de arranque para milhares de nós mundo fora, que continuam à procura da aceitação, de identidade, poder, integridade, possibilidade, abundância, conectividade, consistência, compaixão, e essência, bem como de autonomia e de fé. Através da Criativitade é-nos possível aprender eventualmente a colaborar, a ultrapassar e a transcender padrões e condicionalismos. A Criatividade é assim; é o que nos define como seres humanos, o que nos dá a capacidade de processar conceitos, pensamentos e ideias, sejam estas individuais ou colectivas; de forma organizada e com critério. Em última instância, a Criatividade é o que nos aporta dados ilimitados de internet dia após dia, e que nos possibilita a troca de informação grátis e acessível a todos em qualquer parte do mundo. Esta a que nos desperta, a que nos dá gás, e a que nos dá vida. "O mais engraçado sobre a vida é que se fomos capazes de apenas aceitar o melhor e recusar tudo o resto, muito provavelmente acabamos por obtê-lo" escreveu W. Somerset Maugham.

A Criatividade potencia o nosso mundo atual dando asas a uma nova etapa de intercomunicabilidade através da história, da poesia, passando pela comédia e pelo drama, mas também pela música, pela dança e astrologia.

Com isto não pretendo indicar que sou da opinião de que o signo "peixes" é o melhor ou que agora devemos todos pertencer a este signo. Tão pouco me refiro a este como sendo o expoente máximo da Criatividade ou próximo dominante do zodíaco se assim que podemos falar em linguagem astrológica, no entanto, este, enquanto símbolo arbitrário, é representativo do todo e qualquer tipo de "forma de água", individual e coletiva existente em nós e circundante em todo o nosso planeta. Esta imagem de dois peixes entrelaçados por suas caudas, em direções apostas representa a dualidade que existe em cada um de nós humanos. Parte de nós procura existir, como forma de expressão ou manifesto da condição humana. Como Chaplin dizia é necessário encontrar primeiro o nosso "eu para expressar" para consequentemente manifestá-lo "através daquele que é o nosso tom, e a nossa visão que inevitavelmente influencia o nosso carácter, personalidade própria e originalidade. O ser individual e único que há em nós numa perspetiva de fora para dentro. Enquanto a outra parte nos serve para nos ativar a memória, para nos levar de volta ao passado nesta viagem no tempo, onde nos é possível revistar tanto o nosso pré como pôs parto. Voltarmos a fazer parte destas águas conjuntas no sentido de união, e parte da vontade de nos voltamos a exprimir de dentro para fora e vice versa é essencial quando se fala de criatividade, porque espiritualmente falando, esta requere entrega de corpo e alma. Em última análise, esta imagem de peixes representa a base da humanidade em essência e refere-se a esta "força maior" através das tais divinas almas gêmeas. A nossa essência é frequentemente esquecida pois a nossa condição humana tende a evitar tudo aquilo que não nos é tangível. No entanto o oposto também acontece quando deixamos de ter os pés assentes na terra e consequentemente deixamos de ter contacto ou controlo sobre o nosso próprio corpo ou condição física. Aqui, difícil, não será, embarcar num mundo de tentações, de desejo, onde a vontade de abraçar o caos, os excessos, e co-dependências, intrusões ou os próprios egos falarem mais alto magoando se a si próprios, bem como aos que se encontram ao seu redor. Escusado será dizer, que seguir ou lutar sobre condições dúbias por um sonho, talvez não seja a melhor forma de lá chegar. É positivamente prioritário sermos capazes de deixar o desejo de posse e de aquisição para trás, bem como deixar de partir em busca da vida, para invés disso permitir que a vida e a Criatividade nos encontrem.

O nosso desafio passa por escolher qual o melhor caminho de integração de ambas estas partes já existentes em nós, pois continuamos a nadar em direcções opostas, o que não nos leva a lado nenhum. No entanto, triste é saber que estes peixes a nadar em direções apostas têm vindo a aumentar em grande escala. Existem cada vez mais, viajantes ao contrário, sem propósito, perdidos, constrangidos ou limitados sobre a sua condição. Existem cada vez mais afogamentos, e a previsão é continuarmos a cair de cabeça para baixo até lá ao fundo. A menos que obviamente estejamos dispostos a aceitar essa força que vai para além de nós e dos nossos sentidos como parte integrante do nosso todo. Trazendo à superfície comichões ou imperfeições que necessitem de ser saradas dentro de nós e nos outros através do amor, compaixão e compreensão. Em conclusão, devemos considerar que a Criatividade anda sempre de mãos dadas com a espiritualidade, e neste sentido é importante ter fé, bem como prestar atenção ao que nos rodeia. É necessário parar e realmente ver, ouvir, sentir e tomar consciência de ambas parte física e essência espiritual, como estados que nos permitem atingir um propósito maior.