Capítulo XII

Primeiro artigo em Prol do Artista e da criatividade


O público em geral recebe de forma "arrogante" alguém que lhes diga que é Artista, especialmente quando ainda não é conhecido, não é artista de sucesso, ou não apresenta qualquer tipo de trabalho validado por outrem enquanto Arte dentro de um sistema, indústria ou plataforma artística que normalmente está associado a um certo tipo de estatuto, visibilidade ou remuneração. No entanto, quando alguém se intitula de Artista, a recepção desta "informação personalizada" é imediatamente recebida por outros (na sua mente) como uma interpretação, ideia ou imagem de certa forma preconcebida que o Artista possui qualquer tipo de super poder, que de certa maneira, o faz ser superior perante outro quando este é associado ao acto de criação na maior parte das vezes dado ou entendido como genial, mas supérfluo. Portanto o Artista é visto como um inventor que inventa e que facilmente pode ser falso ou verdadeiro mas é visto como talentoso, virtuoso ou criador de algo suficientemente importante e significativo ao qual podemos chamar arte. "Arte" esta, sempre submetida a certo tipo de julgamento de valor e percepção do que é considerado beleza sublime. No entanto, A ideia de obra de arte e criação vai mais de encontro com a produção de emoções variadas através das várias formas de arte e da técnica artística. A noção de arte e o significado da palavra "Artista" mudou ao longo da história mas se pesquisarmos sobre a sua origem iremos encontrar a definição do termo Artista associado ao que se entende por arte. "Ars, como palavra latina, é a arte ou expressão de sentimentos, emoções e ideias através de recursos plásticos, linguísticos ou de som. O conceito permite abranger criações feitas por seres humanos para expressar sua visão sensível do mundo real ou imaginário" ....

Mas será realmente arrogante, hipócrita ou irónico dizer que se é artista sem resultados à vista?

Eu penso que não. É aquela velha história que se estás à espera que alguém te encontre e te diga tu és um artista bem podes esperar sentado...da mesma forma como esperar pelo príncipe encantado, o artista ao pensar sobre a eventualidade que alguém o encontrará ao virar da esquina e o torne numa "estrela" é a partida um mau princípio, apesar de não ser impossível. Por isso, na minha opinião são artistas, sim, todos aqueles que põem diariamente em prática a sua criatividade seja ela de que maneira for.

Hoje em dia, existe uma tendência para se confundir auto-estima (apreço e valorização que uma pessoa confere a si própria) com amor próprio (sentimento de dignidade ou respeito que uma pessoa tem por si própria). No entanto, o coração humano funciona através do amor, relações amorosas, aceitação, compaixão, culpa, perdão, harmonia, paz, renovação e crescimento que não tem nada que ver com firmeza, determinação, poder pessoal, conhecimento, inteligência, curiosidade, objectividade, control, perspicácia, talento, sabedoria ou consciência. Tem sim a ver com a circulação sanguínea, aparelho respiratório e sistema imunitário. Daí que não é difícil entender como a falta de amor próprio pode eventualmente causar problemas respiratórios, cardíacos, pulmonares, medo ou depressões, quando associados à algum de tipo de pressão ou insuficiência. O criativo é por vezes rotulado de vítima, por estar sujeito a riscos, dedicar-se em extremo perante alguém, causa ou entidade ou até se oferecer por sacrifício. No entanto a criatividade não é isso. A Arte que advém do coração e do amor, não se intelectualiza mas sente-se e, por isso, deve nascer de algo genuíno, algo que dá prazer e, como consequência, é divertido e excitante embarcar nesta viagem ou experiência sem destino.

A Arte passa por criar algo que as pessoas não mostram no seu dia a dia mas sentem. Norma Jean Harris costumava dizer que " a arte não reproduz aquilo que nos é à partida visível (tangível) mas sim naquilo que se torna visível" a criatividade começa a partir de cada um de nós e esse "algo criativo" surge desse processo, viagem ou fora de pista, que nos transporta para um mundo sensorial e esotérico. Esse mundo ao qual acedemos através da criatividade leva-nos a viver uma experiência emocional e põe-nos em contacto com as nossas emoções, estados de espírito e por aí fora. Este processo de criação está directamente ligado ao que está dentro de nós. Quando através da criatividade, nos propomos a explorar aquilo que é verdade e nos dá prazer somos capazes de transcender o nosso próprio ego quando esse elemento criativo passa a intenção e consequente extensão, linha condutora ou propósito maior. Por isso Claudia Black diz que devemos confiar mais na nossa intuição pois a nossa percepção, os nossos instintos "são mais significativos do que aquilo que estamos dispostos a acreditar"

O processo criativo é subjectivo e por isso impossível de analisar uma única razão pela qual sentimos paz ou satisfação ao alcançarmos esse "estado", "lugar" ou "canal" a que acedemos através da criatividade, mas há quem se refira a este lugar como sendo o mesmo onde os amantes se encontram, onde acção está e onde todos nós secretamente desejamos chegar.

"Criatividade requer a coragem de saber lidar com a incerteza" diz Erich Fromm pois os resultados da nossa criatividade nem sempre são aqueles que esperamos que aconteçam no tempo e hora programada. Por isso, Julia Cameron, insiste muito que o foco no resultado ao invés de no processo acaba por criar uma certa pressão sobre nós e como consequência destruir o nosso processo criativo enquanto algo divertido e que nos dá prazer. Consequentemente duvidámos "se realmente vale a pena submeter ou não a certo e determinado tipo de trabalho". Isto no fundo, faz-nos questionar e talvez pôr em causa a nossa performance no sentido em que passamos a ter receio de nos colocarmos em cheque, pelo facto de passarmos a pôr em causa as nossas capacidades intelectuais e artísticas e se seremos ou não capazes de certos e determinados "desafios e avaliações " ao qual nos são impostos por outrem. Só que, "a criatividade não advém do nosso próprio ego". De acordo com Júlia Cameron, o nosso ego é o que verdadeiramente nos bloqueia e nos impede de seguir em frente, sobretudo quando pensamos que só vale a pena ser artista, se realmente conseguirmos ganhar dinheiro suficiente ou se pelo menos tivemos a certeza que não vamos ser alvo de críticas ou bullying." Na maior parte das vezes, confundimos o que é mais importante, colocamos as intenções erradas logo à partida o que faz com que o artista entre, de forma inconsciente, numa "espiral" onde reina o negativismo por essa razão, em vez de apreciarmos o processo de criação e nos divertimos apenas com o facto de o fazer, ficamos sim preocupados e apenas focados no seu resultado. Resultado este que faz todo o sentido vir a acontecer como consequência de certo e determinado processo, mas nunca deverá ser um objectivo que leva ao processo. No entanto "todo o ser humano é criativo" diz May Fienco. A capacidade de ser-se criativo está na nossa natureza, faz parte de ser-se humano e em última instância é aquilo que nos diferencia de outros seres vivos. Consequentemente "todo o ser humano é artista" afirma Joseph Beuy's.

Julia Cameron acredita que hoje em dia as pessoas em geral privam-se do mais pequeno sonho pois estão mais focadas em saber se vão fazer dinheiro com isso pois só se querem comprometer com algo se os outros acharem "bom" o suficiente ou que tenham a certeza que não serão alvos de troça por outros. Segundo a autora, a criatividade não tem nada que ver com o "talento" que essa pessoa tem mas sim tem que ver com a forma como esta é recebida da parte de outrem. A criatividade é no fundo a criança festiva e inconsequente que existe dentro de cada um de nós, no entanto existem seres humanos mais talentosos do que outros mas é também verdade que existem pessoas que são extremamente criativas e o seu talento nunca foi desenvolvido. Às vezes o artista já nasce dentro de uma família criativa e conhece o seu mentor desde cedo e isso é um suporte mas por vezes o embrião da criatividade pode também estar dentro de alguém cuja a família foge "a sete pés" das artes e de situações mais esotéricas. Neste caso é possível que essa pessoa possa ser castigada, por eventualmente, pensar ou expressar a sua vontade de criar. E perante isto a constante questão que o artista se faz a si próprio é: "e se eu arriscar será que as pessoas vão aceitar-me de volta caso eu falhe?

O que é realmente necessário é acreditar em alguma coisa mais forte que nós, que transcenda o nosso ego, as nossas pessoas, os nossos amores e cegamente nos deixarmos ir como se tivéssemos real talento. Segundo consta, existem milhares de artistas frustrados e a percentagem dos que estão bloqueados é maior do que os que têm sucesso e esse é um ponto de vista válido. No entanto se a tragédia de uma "vida" passa a ser o facto de não ter tido a coragem de seguir o seu sonho ai é que inevitável será não acabar frustrada.

RWE avalia que "a beleza do amor" por algo belo ou sublime (no sentido de apreciar alguma coisa feita com amor) é degustação mas a "criação de beleza" em si isso "é arte".

Einstein fala mais em "brincar" e na criatividade como fosse " inteligência a divirta-se" e por isso deve ser "livre de qualquer tipo de especulações" segundo Steven Nachnenovitchbut. Joseph Hilton Pearce dizia que para "viver uma vida criativa devemos perder o medo de errar" e um dos melhores exemplos disso é o próprio Albert Einstein, que tentou noventa e nove vezes submeter a sua "teoria da relatividade" e falhou mas à centésima vez conseguiu. Este, aconselhava que "o melhor é nunca desistir dos nossos objectivos mesmo que eles parecem impossíveis a próxima tentativa será virtuosa".

J K Rowling e obra Harry Potter conhecida por todos nós é outro exemplo (mais recente) de artista e obra de arte que nunca desistiu da sua criação e do processo criativo antes de qualquer tipo de reconhecimento. A emblemática obra "Harry Potter" por exemplo foi rejeitada doze vezes antes de se tornar num sucesso de vendas. No entanto a mesma obra que falhou também acabou por fazer de J.K. Rowling ser reconhecida. Hoje em dia a saga Harry Potter é composta por sete livros, também readaptados ao cinema e conhecida no mundo inteiro. O que quer dizer que durante esses anos que J.K. Rowling tentou e falhou (porque o mundo não aceitava aquele manuscrito enquanto obra de arte) não quis dizer efectivamente que o livro e posteriormente toda a obra Harry Potter em si não fosse verdadeiramente uma verdadeira obra de arte e ela uma artista. Não interessa se a tua criatividade é ou não aceite perante a sociedade pois na verdade nunca sabemos ao certo o que o futuro nos reserva. J. K Rowling demorou oito anos de "nãos" após ter terminado a trilogia Harry Potter e mesmo no dia que finalmente a vendeu, mesmo assim saiu da editora com o aviso de que talvez fosse melhor arranjar um "trabalho durante o dia" pois até à época se acreditava que não seria possível fazer-se muito dinheiro a escrever livros infantis... Rowling conseguiu provar o contrário mas isso também só aconteceu após a publicação de “Harry Potter and the sorcerer's stone".

J. K Rowling é para mim o perfeito exemplo de uma Artista aparentemente desempregada e com uma filha por criar que se tornou numa das mais conceituadas autoras de escrita infantil de todos os tempos e o facto de ela nunca ter deixado de acreditar em si própria e naquilo que eu vejo como processo criativo neste trabalho diário do Artista tem perante a sua criação seja esta qual for e de que maneira, resultou naquilo que hoje é facto e está à vista de quem o quiser ver, de que é possível tornar algo aparentemente irreal em algo suficientemente significativo e intemporal no aqui e agora sem antes ter sido validado por outrem enquanto obra de arte de sucesso indiscutível. E ela própria diz que esses obstáculos que teve ao longo de todo o seu processo enquanto criadora muitas vezes visto como rejeições ou falhas por outrem apenas a fizeram mais forte no entanto foi só quanto ela deixou de tentar ser mais para além daquilo que já era e que tinha dentro de si ( no sentido que deixou de tentar agradar outros , situação onde ela se sentia um tanto vulnerável pela falta de controlo de certo e determinado tipo de feedback que vinha de fora) para se agradar a ela primeiro. Só quando ela se permitiu ouvir seu coração é que realmente conseguiu dar a volta e reunir energias ou forças suficientes para se agarrar com unhas e dentes à aquilo que verdadeiramente estava sob o seu controle e significava tudo para ela... e isto é arte.